quinta-feira, 21 de junho de 2018

Não encontrei ninguém em Israel com tão grande Fé!

No Evangelho na cura do servo do centurião Jesus mostra-nos o que é ter Fé, vejamos:

"Entrando em Cafarnaúm, aproximou-se dele um centurião, suplicando nestes termos:
«Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico, sofrendo horrivelmente.»
Disse-lhe Jesus: «Eu irei curá-lo.» Respondeu-lhe o centurião:
«Senhor, eu não sou digno de que entres debaixo do meu tecto; mas diz uma só palavra e o meu servo será curado. Porque eu, que não passo de um subordinado, tenho soldados às minhas ordens e digo a um: ‘Vai’, e ele vai; a outro: ‘Vem’, e ele vem; e ao meu servo: ‘Faz isto’, e ele faz.»
Jesus, ao ouvi-lo, admirou-se e disse aos que o seguiam: «Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé! Digo-vos que, do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete com Abraão, Isaac e Jacob, no Reino do Céu, ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.»
Disse, então, Jesus ao centurião: «Vai, que tudo se faça conforme a tua fé.» Naquela mesma hora, o servo ficou curado." (Mt 8, 5-13)


A grande Fé que Jesus encontra no centurião é esta: O centurião reconhece a existência de Deus e que Jesus é na verdade o Filho de Deus, a Deus tudo é possível basta dizer e assim se faz e reconhece a humildade e diferença que existe entre nós e Deus.

É este o sentido da Fé, acreditar em Deus e no que nos revelou em Jesus e acreditando vivemos como servos e filhos de Deus.

A Fé não está dependente de uma experiência ou encontro, a Fé é reconhecer e acreditar em Deus. E como Homens e Mulheres que acreditam edificam a sua vida em Deus e para Deus.

Nas XIV jornadas catequéticas da diocese do Porto vem indicado que o catequista é testemunha porque se deixou encontrar, tocar, amar, transformar por Jesus Cristo e pela comunidade. Ainda que seja sem intenção, tentando mostrar o lado belo, é apresentada a Fé e a nossa resposta moldada no sentido do mundo e não no sentido do Evangelho. Isto reduz a Fé a um sentimento e a nossa resposta deixa de ser humilde para passar a ser edificada nos beneficios que a Fé me possa dar.

Esta ideia de uma Fé que se adquire ou transmite por causa de um sentimento ou experiência é contrário ao Evangelho, segue a lógica do mundo centrada no «Eu». Jesus diversas vezes lamentava-se porque as pessoas se não vissem sinais extraordinários e prodígios não acreditavam (por exemplo Jo 4, 48). Querendo que a Fé seja adquirida ou transmitida por causa da um sentimento ou experiência caímos no mesmo erro! A Fé do centurião era grande porque acreditava em Deus e que Jesus era na verdade o Filho de Deus e as suas acções correspondiam ao que acreditava.

Assim, o catequista é testemunha porque tem Fé, acredita em Deus e no que nos revelou, assim ama-O, conhece-O e serve-O porque é Deus, e daí amando o próximo no amor de Deus quer que também eles se salvem e conheçam, amem e sirvam a Deus.

Precisamos de recuperar o sentido da humildade, do dever, de praticar o Bem, a justiça, a santidade. Se acreditamos em Deus e no que nos revelou temos de ser verdadeiros Filhos de Deus, devemos reconhecer o dever de sermos bons servos e bons filhos, o dever de praticar o Bem, a justiça, a santidade. Não somos cristãos e levamos uma vida cristã apenas porque isso é bom para nós, nós somos e fazemos porque é isso que é justo e verdadeiro.

Jesus sofreu e deu a vida por nós e indicou-nos o caminho (da porta estreita) que devemos seguir para recebermos os frutos da Sua redenção e da salvação. É um convite que nos faz, explicando qual a realidade da vida. A esse convite respondemos sim ou não. Como podemos perante Jesus que sofreu e deu a vida por nós dizer-Lhe que primeiro temos de fazer a experiência, o encontro para vermos se é bom e importante para mim?

Às nossas crianças ensinamos que devem respeitar e escutar os mais velhos, não lhes dizemos para fazerem a experiência de estar com os mais velhos e depois decidem se os respeitam e escutam.

Temos de aprender a conversão, aprender a abandonar o «Eu» e colocar o coração em Deus, o mundo está edificado no orgulho mas Jesus pede-nos para nos edificarmos na humildade. Somos a criatura que reconhece o seu criador e tudo o que fez e faz por ela.

Não é verdade que na missa rezamos "Dêmos graças ao Senhor nosso Deus. É nosso dever, é nossa salvação. Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente,
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte por Cristo, nosso Senhor.
", não rezamos também que "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo"?

Não é verdade que no Pai-Nosso rezamos "Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu"? Pois o vir a nós o Vosso Reino é para Deus ser Nosso Senhor, um Rei bom, justo e misericordioso para com o qual temos deveres como servos e como filhos. A vontade que queremos que seja feita na Terra como no Céu é a vontade de Deus, seguirmos os Seus mandamentos, amá-lO com toda a alma e todas as nossas forças.

É esta entrega, este amor de colocarmos Deus sempre em primeiro lugar, este nosso dever e nossa salvação de darmos graças sempre e em toda a parte que Jesus nos fala no episódio de Maria e Marta (Lc 10, 38-42). Maria escolheu a melhor parte, que é escutar Jesus a falar-lhe de Deus e do Seu Reino. Nesse momento diz-nos também Jesus que está é a única coisa necessária.

"Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento." (Mt 22, 37-38).

A transmissão da Fé e o acreditar está aqui, entregamo-nos à melhor parte, amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Acreditando é um dever que temos para com Deus, não depende de sentimentos, experiências ou dos benefícios que possamos receber.

É este amor, dever e entrega a fonte do amor ao próximo. Quem ama a Deus só pode fazer o que é bom, se pratica o mal mostra que deixou de amar a Deus. E quem deixa de amar a Deus nenhuma outra coisa lhe aproveita. É por isso que São Paulo indica "ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita." (1 Cor 13, 3). Nada do que façamos, mesmo que sejam boas obras, nos aproveitam se não vieram da melhor parte, do amar a Deus sobre todas as coisas. Do reconhecimento e entrega ao nosso Senhor e nosso Deus.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Crise de Fé


A Fé é um todo em que se acredita, não se pode ignorar ou retirar algo que não se aceita ou compreende, ou se tem ou não se tem. É um tesouro que é transmitido de geração em geração, para que nós, os nossos filhos e netos um dia também acreditem, com aquela alegria de acreditar sem ter visto.
É importante focarmos a missão neste ponto, no persevar e transmitir a Fé, com toda a Verdade, todos os artigos do Credo, Pai-Nosso e doutrina. É importante ajudar a conhecer bem a Fé, compreender, ajudar a acreditar, à conversão, pedindo a Graça de Deus para acreditar e ajudar a transmitir. Tudo o resto vem daqui, da Fé.

Nós acreditamos em alguém e no que ele nos diz porque esse alguém é de confiança. Assim é com a Fé, acreditamos em Deus e no que nos revelou porque em Deus podemos confiar. É com a nossa livre vontade, ajudados pela Graça de Deus que acreditamos no que nos foi transmitido. É isto ter Fé, acreditar em Deus e no todo que Deus nos revelou, é este o nosso tesouro.
Por isso a Fé não está dependente de fazermos ou não a experiência de Deus, a Fé não é acreditar em algo que nos ajuda e não é termos apenas um enriquecimento espiritual, também não é não saber o sentido da vida e o que acontece depois da morte, não é ter Jesus apenas como amigo e não é encontrar Deus por intuição nossa.

"Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé" disse Nossa Senhora de Fátima, e é este o ponto fundamental da nossa missão pois é onde assenta tudo o resto. Ter Fé, acreditar, em Deus que nos criou e na Verdade que nos revelou, com a Graça e conversão moldando a nossa vida na Vida que nos quer dar.

A crise que vivemos é uma crise de Fé porque moldamos tudo a um acreditar que sabe mais de nós do que de Deus. É uma crise presente não só entre os não crentes mas muitas vezes também entre nós em que a Fé que possuimos já não é a Fé católica, igual à dos Apóstolos e transmitida ao longo dos séculos. Muitas vezes parecemos católico-protestantes ou com gestos pagãos de uma crença incerta.

A crise de Fé leva à crise moral presente não só no mundo mas também por vezes em nós quando o nosso modo de vida não difere muito de quem não acredita. Como diz São Paulo, devemos ser irrepreensíveis e íntegros, filhos de Deus sem mancha, no meio de uma geração perversa e corrompida; nela brilhais como astros no mundo (Fl 2, 15). Mas muitas vezes pouca diferença e brilho existe, com uma Fé frágil, vazia e sem substância não temos a força para formar e edificar a nossa vida cristã.
Por aqui já temos casos de quem não coloca os filhos na catequese em nome de uma suposta liberdade, isto é crise de Fé, e também é quando em casa não se transmite a Fé e se deixa tudo para a catequese, também é quando não se leva o filho à missa, também é quando se reduz a missa a um convivio/celebração da comunidade.
A Igreja existe para ajudar nestes casos, e o mundo precisa que brilhemos e façamos um esforço adicional.

Por isso, venham, não nos conformemos, coloquem dúvidas, questões, dificuldades, o que não compreendem ou não sabem, porque actualmente a pessoa comum que vive de forma normal, mesmo sem cair em extremos, já está afastada da vida cristã e da Fé que Cristo nos veio dar, colocando a salvação em risco e onde o tesouro da Fé não foi recebido nem é transmitido aos seus filhos e netos.

"Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" (1Tm 2, 3-4) façamos a nossa parte para persevar o dogma da Fé para que todos conhecendo a Verdade se salvem.

Nos Evangelhos Jesus fala diversas vezes sobre a oposição que existe entre Ele e o mundo.
"Entreguei-lhes a tua palavra, e o mundo odiou-os, porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do Maligno. De facto, eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo.
Faz que eles sejam teus inteiramente, por meio da Verdade; a Verdade é a tua palavra. Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo, e por eles totalmente me entrego, para que também eles fiquem a ser teus inteiramente, por meio da Verdade." (Jo 17, 14-19)


O mundo onde nascemos não é compatível com Deus por causa do pecado e da nossa natureza, fruto do pecado original. Por isso necessitamos de salvação, sem Jesus já estavamos condenados. É o abismo que existe entre o mundo e Deus, "entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão-pouco vir daí para junto de nós." (Lc 16, 26).

Pela salvação que Jesus alcançou esse abismo deixa de existir, e em vez de um abismo temos a possibilidade de uma forte comunhão, "Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. 24Quem não me tem amor não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas é do Pai, que me enviou." (Jo 14, 23-24).

Mas para isto é necessário da nossa parte cooperarmos com a Graça de Deus, acreditarmos na Fé e convertermo-nos.

O mundo e a lógica do mundo onde existe o abismo continua, mesmo após o baptismo precisamos de ajuda para perseverarmos na Fé. Para isso Jesus deu-nos a Igreja e os sacramentos, principalmente a Hóstia Sagrada o como alimento da vida eterna.
Não é necessário retirarmo-nos todos para longe do mundo, temos de nele permanecer mas vivemos de maneira diferente, passamos a viver para Deus santificando o mundo.

Assim, a nossa Esperança não é de um mundo melhor ou uma vida feliz, esses são os nossos deveres de cristãos que devemos fazer e proporcionar mesmo aos pecadores e a quem não acredita, tendo sempre Deus como medida do Bem e não apenas o Homem ou o mundo. Na verdade a nossa Esperança é o Céu, a vida eterna no Reino de Deus quando o Senhor voltar, aqui na terra somos peregrinos, dirigimo-nos para a nossa pátria que é o Céu, como no plano original de Deus, antes do pecado original.

Por isso no mundo temos uma tarefa importante: escolher e preparar onde vamos passar a eternidade.
Ajudemo-nos uns aos outros para que seja no Céu, junto do Deus único e verdadeiro que nos criou por amor, para o conhecermos, amarmos e servirmos.

É isto que temos de conseguir dar às nossas crianças e jovens, a Fé e ajudá-los a converter-se. O maior amor que lhes podemos desejar é que alcancem o Céu para o qual foram criados! E o Céu não está garantido à partida, é necessário conversão, acreditar.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

É preciso viver, não ir vivendo

Na quarta-feira o Papa Francisco na sua audiência geral citou a frase "é preciso viver, não ir vivendo" de uma carta do Beato Pier Giorgio Frassati, vale a pena ler a carta para compreendermos essa diferença entre viver ou ir vivendo.

A carta pode ser lida aqui em italiano, coloco a minha tradução para português:

"Carta para Isidoro Bonini, 27 de Fevereiro de 1925

Carissímo,


...Cada vez mais compreendo qual é a Graça de ser Católico. Pobres daqueles desgraçados que não têm Fé: viver sem uma Fé, sem um património a defender, sem perseverar numa luta continua pela Verdade não é viver mas ir vivendo. Não devemos mais ir vivendo mas viver porque mesmo que atravessemos desilusões devemos nos recordar de que somos os únicos que possuímos a Verdade, temos uma Fé a presevar, uma Esperança a alcançar, a nossa Pátria.  E assim banimos qualquer melancolia que só pode existir quando a Fé está perdida. As dores humanas tocam-nos, mas se elas são vistas sob a luz da Religião e, portanto, de resignação não são prejudiciais, mas saudáveis ​​porque purificam a Alma dos pequenos mas inevitáveis ​​pontos pelos quais nós homens, devido à nossa má natureza, muitas vezes nos manchamos.

Nesta santa Quaresma com o Coração ao alto e sempre em frente pelo triunfo do reino de Cristo na sociedade.

Saudações cordiais em J.C.
Fra Girolamo"

A sociedade vai vivendo, indiferente, descrente ou com uma crença em algo em que o horizonte é apenas aqui na terra.
Devemos viver, ter Fé e acreditar, edificados na Verdade, amando a Deus sobre todas as coisas como Nosso Senhor, Criador de todas as coisas e como nosso Pai.

Procuremos a Fé que esclarece a Verdade, ajuda-nos a conhecer Deus e a saber o que pretende de nós, pois não se ama o que não se conhece. Deixemos as ilusões do mundo que promete a felicidade na terra, o cristão não procura a felicidade porque já a encontrou no Deus único e verdadeiro, o que o cristão procura e vive é a alegria de acreditar e a forma de a transmitir ao próximo.

É preciso viver, não ir vivendo!

terça-feira, 12 de junho de 2018

Andaremos distraídos?

Continuando a reflexão sobre a Fé, tendo no olhar sempre os simples e humildes, questionamos agora o porquê de tanta relativização, porque é que muitas pessoas não vão à missa, outras vão raramente, outras mesmo tendo os filhos na catequese não vão e não os levam, ou apenas raramente o fazem? Andaremos distraídos?

Vêmos que as pessoas até consideram a missa e as coisas da religião importantes mas muitas vezes têm também outras coisas a que dão também importância. As pessoas estão simplesmente a viver a sua vida, querem ser felizes e tentam compatibilizar as diferentes solicitações e deveres que têm, tentando alcançar esse fim: viver feliz.
O desejo de termos uma vida feliz, plena e realizada é normal, é um desejo que só por si não tem mal nenhum. Mas não estaremos a procurar a felicidade no lugar errado e na forma errada?

No Evangelho Jesus não nos promete uma vida feliz, plena e realizada, antes pelo contrário indica-nos que quem o seguir será alvo de perseguições, como Ele foi, terá de carregar a sua cruz. O que Jesus nos promete é no fim do caminho neste mundo, tendo Fé em Deus, amando-O sobre todas as coisas e levando uma vida de Caridade, praticando as bem-aventuranças, praticando o amor ao próximo, sendo verdadeiros discipulos alcançaremos um lugar no Seu Reino, estaremos junto d'Ele no Céu. Essa é a verdadeira vida.

Aqui vêmos uma grande diferença entre a prática de relativização que vêmos ocorrer e a mensagem de Jesus. A primeira procura a felicidade na terra e Jesus dá-nos a felicidade no Céu, no Seu Reino. Parece que sim, estamos de facto distraídos.

Aquele desejo que falava acima é um desejo natural, foi inscrito por Deus em nós na nossa natureza humana. É o desejo que nos vai fazer partir em busca de algo mais. Na nossa ignorância procuramos, mas na realidade esse desejo só será realizado quando estivermos com Deus.
Para nossa felicidade esta busca não precisa de ser às escuras, pelo contrário, Jesus que é a verdadeira Luz diz-nos como se realiza essa busca e o que encontraremos no fim (Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida). Se não soubermos o quê e o como estaremos na mesma à procura às escuras, o que em relação a Deus se verifica quando apenas temos uma crença religiosa: acreditamos em algo que nos preenche e realiza mas não sabemos bem o quê, como nem com a certeza de que fim. É a crença dos pagãos que divinizam a natureza ou elementos da natureza, criam falsos ídolos, etc. É a crença dos fariseus e doutores da Lei que para com Deus apenas consideram preceitos e regras sem uma vida edificada em Deus e é também a crença da vida levada apenas segundo o humanismo, tendo o Homem e um mundo melhor como objectivo onde Deus não entra ou entra apenas se for para preencher ou melhorar a vida do Homem na terra, trocando na prática os papeis do Homem e de Deus.
(uma nota: melhorar a vida do Homem na terra e ter um mundo melhor são importantes! Mas não são o objectivo de ser cristão. O objectivo é edificarmos a vida em Deus, melhorar a vida do Homem na terra e ter um mundo melhor são então um dever e um fruto da Caridade, são o fruto de sermos bons cristãos mas sempre tendo Deus como a medida do Bem e não apenas o Homem ou o mundo).

Cristo retira-nos da dúvida e da ignorância e dá-nos a Luz: crer no Deus único e verdadeiro!

Assim, para que a Luz de Cristo chegue às pessoas é necessário transmitir a Fé, todos os pontos da Verdade, os artigos da Fé em que devemos acreditar, sem relativizar, incluindo quer as coisas fáceis quer as difíceis. Depois, a pessoa pedindo a Deus a graça de acreditar firmemente adere e dá o seu assentimento à Verdade, diz sim eu acredito! E convertendo-se passa a viver segundo a Fé, uma vida cristã.

Alguma vez paramos para pensar nisto? Eu acredito? Só o facto de existir o Deus único e verdadeiro deve-nos fazer pensar, dar uma resposta. Parem para pensar, é magnífico, Deus é eterno, criou o Universo e criou-nos a nós! Só este ponto pede de nós uma resposta, não podemos permanecer indiferentes, na ignorância.

Muitas vezes na transmissão já acontece a relativização, o que aos ouvidos das pessoas hoje em dia soa como se o que Jesus nos dá fosse a vida feliz, plena e realizada no mundo em vez do caminho belo e exigente para o Céu. Isso acontece por exemplo em duas frases que é comum escutarmos: "Deus ama todos, mesmo os que pensam diferente de nós" e "não podemos duvidar do amor de Deus, Deus perdoa sempre".

Nas duas frases ao ouvinte que procura uma vida feliz, plena e realizada no mundo elas soam como um alivio, uma confirmação na relativização, afinal Deus ama e perdoa. Mas o que realmente significam?

"Deus ama todos, mesmo os que pensam diferente de nós" isso é verdade, o amor de Deus é imenso mesmo para os que pensam diferente de nós, que não são cristãos. E qual é esse amor imenso? É ter dado o Seu Filho para que pela Sua morte e ressurreição possam também eles alcançar um lugar junto d'Ele no Céu. E como podem alcançar o Céu? Acreditando em Jesus, que é mesmo o Filho de Deus, convertendo-se. A frase não é para estarmos indiferentes, como se fosse apenas um «olá» podemos continuar a nossa vida e vamos todos para o Céu. Não, a frase é para ajudarmos à conversão, é necessário conversão e acreditar.

"Não podemos duvidar do amor de Deus, Deus perdoa sempre" isso é verdade mas mais uma vez para o perdão ocorrer é necessário conversão! Deus está sempre pronto a perdoar, mesmo ao maior pecador, mas para isso é necessário aceitarmos o perdão! Precisamos de saber que estavamos a necessitar do perdão de Deus, de compreender e reconhecer o pecado, precisamos novamente de conversão!





E conversão é colocarmos o coração em Deus, vivermos já não apenas para nós mas por Deus e com Deus, como Cristo.

Não continuemos distraídos, não adianta continuar à procura da vida feliz, plena e realizada sem conversão e sem uma Fé fundada na Verdade, sem essa vida ser edificada em Deus. Isso é desperdiçar o amor de Deus e a salvação! É podermos ser condenados, pois sem Jesus já estávamos condenados!
Deus ama todos, perdoa sempre e quer que todos se salvem mas temos de nos converter! Procurai as verdades da Fé e pedi a Deus a graça de acreditar de dar o vosso assentimento, o Sim a Deus, e a partir daí edificai a vossa vida!

No Evangelho em João (3, 16-21) Jesus é claro na Sua missão: "Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus. E a condenação está nisto: a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más. De facto, quem pratica o mal odeia a Luz e não se aproxima da Luz para que as suas acções não sejam desmascaradas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, de modo a tornar-se claro que os seus actos são feitos segundo Deus.".

Se procurais uma vida feliz, plena e realizada, se procurais o Bem, ser justos e bons, procurai a Fé, acreditai e convertei-vos, edificai a vida em Deus. Tudo o resto é ilusão e vaidade que passa, correndo o risco da condenação eterna ao esquecermos o amor e perdão de Deus!

Santo Inácio de Loyola sintetiza muito bem porque existimos e qual é o nosso fim, é isto a vida do cristão, tudo o resto são falsas promessas de felicidade:
"O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado.
Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudam para o seu fim, e tanto deve deixar-se delas, quanto disso o impedem."
.

Estamos aqui a caminho do Céu, a nossa vida tem um propósito maior que é Deus: a verdadeira e única felicidade do Homem. Não desperdicemos o propósito maior da nossa vida levando uma vida distraída, ignorante em relação a Deus, presa ao hedonismo (satisfação de todos os desejos e prazeres), criando falsos ídolos que substituem Deus ou colocando-nos a nós como Deus, como a medida do Bem.

Aqui na terra a vida feliz, plena e realizada faz-se simples e humildemente vivendo na Graça de Deus a caminho do Céu! Guardando os mandamentos e praticando a Caridade. Aí descubrireis a verdadeira liberdade!

A salvação

O que é a salvação? Aqui está um belo texto para nos desacomodar e levar à verdadeira missão:  a salvação das almas. Partilho um texto magnífico de Susan Potts no The Remnant Newspaper.
Os realces no texto são meus.

Para onde foram todos os católicos?
Escrito por Susan Potts
https://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/3931-where-have-all-the-catholics-gone

Nos dias anteriores às Mudanças, ninguém usava palavras como liturgia ou eucaristia ou reconciliação. Era a Missa, a Sagrada Comunhão e Confissão. Palavras simples e diretas. Todos sabiam o que eles significavam. Nós não falamos sobre rubricas, e a maioria dos leigos não sabia nada sobre ambos e asperções e turibulos. Esse eram assuntos do padre. Como um médico, ele tinha o seu léxico profissional, e não era realmente a nossa preocupação. Nós apenas seguiamos em frente, confiantes de que estávamos sendo levados para o céu.

É disso que falavamos, Céu e Purgatório, e o que tínhamos que fazer para alcançar um e encurtar o outro. Nós estremeciamos ao pensar no Inferno, e também não falavamos muito sobre isso. Nós apenas pensavamos em trabalhar a nossa salvação com medo e tremor, como São Paulo nos disse para fazer. Tudo pelo amor de Jesus, a Glória de Deus e a Salvação das almas, assim nós costumávamos dizer.

Mas você quase nunca mais ouve falar sobre a salvação. O assunto simplesmente não aparece. Você não se pergunta porquê? Estão os católicos assim tão certos do Céu, ou está alguma outra coisa acontecendo?

Eu acho que é outra coisa. Há uma profunda relutância neles para abordar o assunto. Algo os retém. Não é que eles estejam em silêncio. Há muita conversa insípida por aí. Mas se você cortar as palavras vazias e olhar abaixo da superfície do que hoje passa por teologia, você encontrará o obstáculo.

É um bloqueio mental de parede tripla.

Primeiro, as pessoas não sabem mais o que é o Céu. Segundo, eles não sabem o que é pecado e o que não é. E terceiro, eles não sabem o que fazer com essa doutrina problemática, Extra Ecclesia Nulla Salus, fora da Igreja não existe salvação. Essas três coisas tornam quase impossível falar sobre salvação.

Considere o primeiro obstáculo. Muitos anos de sacerdotes e professores agnósticos nos dizendo que realmente não sabemos nada sobre o Céu, isto fez desaparecer a Fé e a Esperança sobrenaturais. Nada mais parece claro. Perguntas não são respondidas; as dúvidas não são dissipadas. Retiros, palestras sobre educação religiosa e discussões em sala de aula são mais ou menos assim:

"O céu é um lugar?", Pergunta um estudante.

O pedante encarregado balança a cabeça, mas não diz nada. Ele acaricia o queixo e abaixa as pálpebras, ponderando a questão. Todo mundo espera

"É um estado da existência", diz ele finalmente, com cuidado, como se estivesse transmitindo uma verdade profunda.

O estudante persiste. "Mas o que isso significa?"

"Não temos certeza."

O estudante suspira. Ele vira a cabeça, olha pela janela e nunca mais coloca a questão.

Eu já ouvi esse tipo de coisa muitas vezes. Logo o assunto é falado as palavras evaporam, portentosas como fumaça fina. Nada adere à mente; nada se apega à alma.

Chega deste absurdo. É claro que o Céu é um lugar e os que têm autoridade devem dizer isso alto e claro. Esse lugar sobrenatural está além da nossa imaginação, mas isso não significa que não seja real. Está acima da natureza, incorruptível; a sua substância dura para sempre.

Quero dizer, vamos ver, se o Céu não é um lugar, então onde está Nosso Senhor? O que Ele vê através de Seus belos olhos, e o que Ele toca com suas Mãos Feridas? E exatamente onde está Nossa Senhora, a Imaculada Conceição, ela que assumiu corpo e alma no Céu?

Eles não estão flutuando nalguma névoa etérea. Aqui estamos a falar de presença física. Algum dia, quando contemplarmos os nossos Rei e Rainha reinarem gloriosamente no Céu, serão rostos reais que veremos, vozes reais que ouviremos.

A negação da realidade substancial do Céu destrói uma doutrina após a outra. Se o Céu não é um lugar, o que dizer da Ressurreição do Corpo? Não deveríamos ter os nossos corpos de volta no Dia do Julgamento? O nosso próprio sangue e ossos? Os nossos próprios dedos das mãos e pés? Isso é o que a Igreja ensina. É nisso que acreditamos. Mas para onde iriam esses corpos glorificados?

Ah, então isso não é tão certo também.

A Encarnação, a Ascensão e a Segunda Vinda são colocadas em dúvida. Acabamos com algum tipo de tagarelice esotérica sobre a próxima vida. Eles nos dizem que temos que ter fé que a vida continua após a morte, não temos certeza de como. Talvez seja uma imortalidade espiritual, livre de carne. Quem sabe?

O segundo obstáculo para abrir a discussão sobre a salvação é o problema do pecado e suas consequências. Cristo morreu pelos nossos pecados. Todo mundo repete a fórmula, mas as palavras realmente penetram em nós? Alguém percebe porquê?

Para nos salvar do inferno. É por isso. Isso é o que a salvação é. Para nos resgatar da condenação. Se não formos salvos, estamos condenados. É tão simples como isto.

Temo que as pessoas não tenham mais medo do Inferno. Eles rejeitam toda a ideia. É simplesmente absurdo demais para a mente moderna; a imagem não adere. Chamas e escuridão e o cheiro de enxofre - quem acredita nisso?

Mas o inferno existe. É real. E isso é eterno.

Imagine a pior dor, a pior tristeza, o pior arrependimento que você já experimentou. Sinta novamente a angústia, a amargura, a solidão mais arrebatadora que você já sentiu. Isso é apenas um vislumbre do que é o Inferno, e o pecado coloca-nos lá.

Ainda não podemos falar sobre o pecado. Nós não devemos julgar. Não devemos mencionar os mandamentos. É como se o pecado não existisse. Você acha que os padres se tornaram psicólogos. Praticando o positivismo incondicional, a negatividade se dissolve, e uma bela flor cresce das profundezas do coração humano perfeito, mais ou menos como uma versão moderna do Nobre Selvagem de Rousseau. Nenhuma mancha de pecado original existe para eles. Está tudo bem.

E qual é o efeito de negar o mal? É a Perdição.

Pense em todas as coisas que as pessoas agora aceitam. Coisas que costumávamos chamar de Pecados Mortais - mortais, porque eles nos matariam. A Igreja costumava nos alertar sobre eles, para que não nos perdêssemos, mas há muito silêncio agora.

O maior deles é a contracepção artificial. Nunca esquecerei o que aconteceu no domingo após o lançamento do Humanae Vitae. A encíclica foi notícia de primeira página no jornal local. Um longo artigo citava uma grande quantidade de teólogos que afirmavam, com aparente autoridade, que o ensinamento não era infalível. As pessoas poderiam decidir sobre isso. Eles eram adultos responsáveis.

Curioso, pensei, quando fomos à missa, esperando ouvir o verdadeiro ensinamento da Igreja. Mas o padre nem sequer mencionou a encíclica, nem na semana seguinte, nem na próxima. Mais tarde soubemos que até mesmo os bispos haviam rejeitado e Roma não fez nada. A dissidência se levantou. Ninguém falou sobre isso. O planeamento familiar era um assunto privado, afinal de contas. O que os sacerdotes celibatários sabiam sobre o casamento? Eles se perguntavam.

Então as pessoas fizeram o que parecia certo aos seus próprios olhos. Não houve repercussões. Em todos esses anos, nunca ouvi um padre dizer no púlpito que uma mulher não pode ir à Comunhão se está tomando pílula, ou ouviu um padre falar sobre o mal da esterilização, o golpe de morte no corpo, a infame mutilação da carne.

Eles são relutantes em falar sobre a perversão da homossexualidade, mesmo diante de todos os escândalos. Eles não falam sobre adultério ou fornicação ou cobiça ou roubo. Sobre mentir? Não, nem uma palavra.

Eles raramente falam sobre a beleza do Céu, o sofrimento no Purgatório, ou a dor ardente do Inferno. Imagine isso. Ninguém menciona que nem todos nós podemos acabar no mesmo lugar. Não há sinais de aviso. Eu acho que não há nada para se preocupar.

Estão todos estão salvos? Ninguém está perdido?

O pedante fala de novo:

"Jesus é tão misericordioso", diz ele com um aceno de mão. "Ele não suportaria mandar ninguém para o inferno."

"Mas você não precisa fazer nada para ir para o Céu?", Pergunta um aluno inocente. "Você não tem que ser digno?"

O pedante revira os olhos.

O menino persiste. "Você tem que ser batizado, certo? Você tem que ser católico".

Outro aluno fala. "Visto que a Igreja é o Corpo Místico de Cristo, os sacramentos não nos mudam? Torna-nos aptos para o céu?"

O pedante levanta o queixo. Seus olhos cinzentos estão distantes, como se ele visse além do quarto, vendo algo que ninguém mais pode ver. Ele inala profundamente pelo nariz.

"Não se deve ser divisivo", diz ele, em seguida, detalha o novo entendimento, a probabilidade da salvação universal. Há ignorância invencível, afinal de contas, e toda a ideia do cristão inconsciente. E depois há aquelas experiências de quase morte que parecem apontar para uma vida após a morte agradável para todos. Não faz sentido falar sobre isso, conclui ele.

Mas eu digo que devemos.

Por que o Magistério não limpa o nevoeiro? Por que os padres e bispos não dizem apenas: Fora da Igreja Católica não há salvação. Eles estão assustados? Com medo de ofender os infiéis? Ou pior, eles perderam a Fé?

Independentemente disso, a doutrina é verdadeira.

Deixe-me dizer-lhe o que esse ensinamento significava para mim há muito tempo atrás, quando eu era apenas uma garotinha. Não foi nada menos do que um convite do céu.

Eu não nasci católica, embora não tenha entendido muito bem isso. Afinal, eu conhecia o Credo Niceno de cor e recitei fielmente na Igreja Episcopal de Cristo, orgulhosamente proclamando minha crença na Única Igreja Católica e Apostólica. Eu não era protestante, isso era certo. Mas meus amigos católicos da quarta classe me colocaram firmemente na Estrada para a Salvação.

Nós costumávamos ficar num círculo no recreio na Southwestern School, esperando que o professor não notasse e nos fizesse jogar kickball ou Red Rover ou algum outro jogo chato. Nós tinhamos coisas importantes para discutir. Havia cinco de nós - Dolores, Mary Kay, Anne, Barbara e eu.

Às vezes estava muito frio. A neve cobria os nossos sapatos de sela, e nos amontoavamos juntos, puxando os nossos casacos para perto e tremendo como loucos. Mas eu quase não notava. Essas garotas me contaram as coisas mais surpreendentes. Coisas que eu nunca tinha ouvido antes. Coisas sobre o outro mundo. Eu poderia ter escutado elas para sempre. Elas tinham palavras engraçadas como o Purgatório e o Limbo e indulgências. Eles realmente acreditavam no inferno. O diabo era real, elas diziam.

Meus amigos conheciam todo tipo de coisas sobre o céu. Era fantástico. Era como se eles compartilhassem algum conhecimento secreto. Não havia dúvida em suas mentes que o Céu era um lugar, e eles conversaram sobre isso como se tivessem estado lá. Eu pedida para saber mais.

Eles se entreolharam, sacudiram a cabeça e depois olharam tristemente para mim.

"Mas você não pode ir para o céu", disseram eles.

"Por que não?"

"Porque você não é católico."

"O que eu tenho que fazer para ser católico?"

"Você tem que ir à catequese."

Essas palavras atingiram meu coração como uma flecha. Mesmo que eu não fosse capaz de “ir à catequese” até que eu estivesse no segundo ano da faculdade, decidi-me naquele momento. Eu seria católica. Uma de verdade, não apenas uma dizendo o Credo de Nicéia na Igreja Episcopal, imaginando como eu poderia acreditar na Única Igreja Católica Sagrada e não estar nela.

Essas garotas de nove anos possuíam a Verdade e não hesitaram em me avisar. Eles me disseram o que era necessário para a salvação porque eu era amiga deles. Eles não diluíram a doutrina. Eu não precisava saber sobre as exceções. Eu só precisava de ser católica.

Por favor, me poupe das nuances. Eles existem, eu entendo isso. Pode haver pessoas no céu que não pensamos que estaria lá. Isso é bom. Eu não faço ideia de como o Senhor vai resgatar pessoas no último minuto que não entraram na Igreja durante sua vida. Eu não finjo saber como a graça queima a incredulidade de suas mentes antes que suas almas partam deste mundo, mas eu não tenho que conhecer essas coisas extraordinárias. Isso é assunto de Deus.

Tudo o que sei é que todo ser humano nesta terra precisa de ser resgatado do inferno. Nosso Senhor morreu para garantir um lugar para nós no céu. Ele fundou uma Igreja, a Única Igreja Verdadeira, necessária para a salvação das almas.

Se isso não for verdade, então tudo o que estamos fazendo é uma perda de tempo. Por que devemos lutar tanto? Por que devemos nos manter tão próximos da tradição? Por que deveríamos nos esforçar para enfrentar o fluxo de imoralidade e desespero que engole o mundo? O que isso importa? Qual é o ponto? Se existe salvação fora da Igreja Católica, então não precisamos fazer nada. Apenas pule de volta no Mar do Desconhecimento.

Para mim, eu prefiro ser como os meus velhos amigos, aquelas garotas valentes que primeiro me disseram o que eu tinha que fazer para salvar minha alma.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Como crianças

"Deixai vir a mim os pequeninos e não os afasteis, porque o Reino de Deus pertence aos que são como eles.
Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele."
(Mc 10, 14-15).

O Senhor ensina-nos que para entrarmos no Reino de Deus temos de ser simples e humildes como uma pequena criança. Por isso o acreditar e a transmissão da Fé tem de ser algo simples e humilde, adequado aos simples e humildes, que possibilite acreditar como uma criança que pensava que era orfã e encontrou o Pai.

Hoje em dia, seguindo a lógica da sociedade, costuma-se transmitir a Fé como uma experiência enriquecedora para a nossa vida, em que Jesus vem dar um sentido e plenitude à nossa existência.
Esta forma falha no pedido do Senhor, não é uma forma simples e humilde pois vai depender das capacidades, da experiência e da sensibilidade de cada um. Não pode ser isto, pois isto não é a criança simples e humilde que procura o Pai, é apenas a sociedade que está edificada no Eu e que não consegue se abstrair de si. É o «Eu existo» e por isso procuro algo mais para mim.

Vamos seguir então à procura da simplicidade e humildade para compreendermos a transmissão da Fé. Começamos por seguir a oração que deve moldar o nosso coração.

No próximo Domingo, dia 10, temos na primeira leitura o Génesis na parte depois do pecado original, onde na queda dos nossos pais a humanidade se afastou de Deus. Por isso nós necessitamos da Redenção alcançada por Cristo e da entrada na Igreja pelo baptismo para recebermos os frutos da Redenção de Cristo e a Graça de Deus.

Na segunda leitura São Paulo indica-nos que "Diz a Escritura: «Acreditei; por isso falei». Com este mesmo espírito de fé, também nós acreditamos, e por isso falamos, sabendo que Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele." e que "Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens."

No Evangelho o Senhor diz-nos que "Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe".


No Domingo anterior, dia 3, a oração depois da comunhão era a seguinte:
Guiai, Senhor, com o vosso Espírito
aqueles que alimentais
com o Corpo e o Sangue do vosso Filho,
de modo que, dando testemunho de Vós
não só com palavras mas em obras e verdade,
mereçamos entrar no reino dos Céus.

Nestas orações vemos os elementos do Caminho, Verdade e Vida que o Senhor nos fala, já temos todos os elementos para o acreditar e transmitir de forma simples e humilde a Fé.


Deus existe! Jesus é de verdade o Messias, o Filho de Deus. Nós estávamos presos e condenados ao pecado e à morte eterna mas Ele alcançou-nos a salvação. Pelo baptismo recebemos a Graça de Deus e nela devemos perseverar, cumprindo a vontade de Deus, guardando os Seus mandamentos e vivendo segundo a Caridade. No mundo somos apenas peregrinos que se dirigem para a pátria celeste.

Simples e humildes, como crianças, foi-nos transmitida a Verdade! Estávamos orfãos, perdidos e condenados mas afinal temos Pai! E com simplicidade e humildade já não sou Eu que existe, é Deus que existe! É aí que está a nossa certeza, Deus é eterno e nós apenas um pequeno momento na terra.
É esta a simplicidade, Deus existe e é nosso Pai! É esta a humildade, já não é a partir do Eu que vou considerar a vida e o mundo, mas a partir de Deus. É a partir d'Ele que vou edificar a minha vida, na rocha da Verdade. Edificada nos artigos da Fé, no Credo, em perfeita harmonia, suficientemente simples para uma criança aprender e profundos o suficiente para o mais erudito teólogo. Tudo o que temos de fazer é dar assentimento à Fé transmitida pela Igreja, é uma virtude em que na nossa liberdade damos assentimento, auxiliados pela Graça divina, a Deus e a tudo o que Deus nos revelou porque Ele é a Verdade.
Na Fé temos respostas ainda antes de sabermos formular as questões. Temos a simplicidade onde podemos edificar a nossa vida, onde visto à luz da Fé, tudo, nascimento, morte, sofrimento, alegria, amor, tudo pode ser compreendido, pelos simples e humildes.

Nós estávamos na ignorância, perdidos, à procura da Verdade e actualmente como sociedade e como membros da Igreja muitas vezes continuamos na ignorância, à procura de uma verdade dentro de nós quando ela está à nossa frente. Reduzimos a Fé a uma experiência em que acabamos por acreditar mais em nós do que em Deus.
Na ignorância considerávamos assim a existência e por isso a preocupação de sermos o centro da atenção:
No entanto a Verdade que o Senhor nos ensinou é esta:
Melhor descrito ainda, Deus amou-nos deste o princípio e um dia virá o Senhor instaurar o Seu Reino:
E é este o valor da Vida, que vai além da existência no mundo, é amor de Deus.
Quando consideramos a religião, a Fé católica, como uma experiência enriquecedora para a nossa vida já estamos a entrar no erro do mundo, do sentido utilitarista da vida. Em que a vida não faz sentido se não for plena, realizada, preenchida, atribuímos-lhe nós um valor e por isso queremos a Fé apenas se nos retribuir esse valor. Não! A vida provém do amor de Deus, tem um valor que vai para além do mundo, Deus criou-nos para o amar-mos, adorar-mos e servirmos. E o Senhor ensinou-nos que enquanto estivermos no mundo teremos sempre a cruz para carregar, uma vida de sacrifício e de renúncia é a vida do cristão, vida de luta contra o mal. No entanto, consola-nos e anima-nos aqui neste mundo a esperança da Redenção e o desejo do Céu, da visão de Deus. "Vinde Senhor Jesus" é a aspiração do cristão!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Reflexão sobre a catequese

Algumas questões que colocam Deus no centro, o amar a Deus sobre todas as coisas como fonte e centro da vida cristã para podermos praticar bem o amar o próximo, para ajudar à reflexão sobre a catequese:

- as crianças e jovens (e respectivas familias) cresceram na prática de vida cristã? (participação na missa, oração habitual, etc.)

- as crianças e jovens aumentaram a consciência da existência do Deus único e verdadeiro? Cresceram no conhecimento da Verdade que Deus nos revelou?

- cresceram na Fé tendo consciência da diferença entre crença religiosa e Fé? (crença é acredital em algo que não se sabe bem o quê ou ter a religião como um complemento espiritual da vida enquanto que a Fé é acreditar na existência do Deus vivo e naquilo que nos revelou em Jesus até à morte do último Apóstolo)

- cresceram na relação com a salvação que nos é concedida, tendo consciência do pecado original e que a salvação é a vida eterna e não uma salvação terrena de felicidade e paraiso na terra? Cresceram na reflexão e conhecimento do que é necessário para a alcançar?

- cresceram na Esperança, tendo-a como a esperança da vida eterna no Céu e da partilha da vida na Graça de Deus e de que Deus os ajuda a alcançar?

- cresceram na Caridade de forma que já não seja apenas a solidariedade e fraternidade do mundo mas o viver o amor divino e levá-lo e partilhá-lo com o próximo?

- cresceram no sentido, origem e destino da vida em que fomos criados por Deus para O conhecermos, amarmos e servirmos, estando a nossa verdadeira felicidade quando repousamos nos braços de Deus?

- cresceram na vivência e conhecimento de que a vida que Deus nos quer dar é a vida na Graça de Deus?

- cresceram no temor de Deus vendo-O como Senhor e eles como servos bons e fieis, quer no pouco quer no muito, que aplicam bem os seus talentos e o dom da vida que receberam?

- cresceram no temor de Deus vendo-O como Pai que os ama, quer que se salvem e quer que partilhem da Sua vida? Reconhecendo a ofença do pecado, do amor que se pratica guardando os Seus mandamentos?

- cresceram na sabedoria de Deus vendo o mundo e os outros com o olhar de Deus, com amor, justiça, misericórdia e santidade?

- cresceram na santidade que é abandonar a vida mundana e viver em Deus e para Deus? (aqui encontra-se também o sentido do viver no mundo sem ser do mundo, estamos na mesma no mundo, junto dos pecadores, de quem é diferente e pensa diferente, mas já não temos a mesma lógica mundana, temos a lógica de Deus, de santificação do mundo)

- os jovens cresceram na edificação da sua vida na rocha verdadeira que é Cristo, único Caminho, Verdade e Vida?

- os jovens cresceram na noção de que todos somos chamados por Deus a uma vocação de santidade? Esta pode ser seguida no sacerdócio, vida religiosa, matrimónio ou leigo consagrado, devendo cada um avaliar, rezar e discernir segundo o chamamento e vocação/aptidões que tem.

- os jovens foram ajudados na valorização da vida que Deus lhes deu ensinando-os o caminho do namoro como o caminho da procura da pessoa com quem vão passar a sua vida, auxiliando-se mutuamente na busca da santidade e da Graça de Deus, gerando novos filhos para serem também filhos de Deus? (namoro como preparação para o matrimónio)

- os jovens reflectiram e foram alertados para os perigos do materialismo, utilitarismo, consumismo e modernismo?

- os jovens reflectiram e foram alertados para a diferença entre ser cristão e ser humanista cristão?

- os jovens foram ajudados a compreender a moral natural, a doutrina e preceitos da Igreja como sabedoria de Deus e não como imposições farisiacas?

- os jovens foram ajudados a compreender que os fariseus impunham regras para além dos mandamentos, limitavam o acesso a Deus e manipulavam a Lei conforme os seus desejos e proveitos e de que Cristo veio aproximar-nos de Deus, na vida que é vivida nos mandamentos, no amor de Deus sobre todas as coisas e no amor ao próximo? Foram também ajudados a compreender o perigo do relativismo e do comodismo que falsifica o amor de Deus como sendo simplesmente a felicidade do Homem, à sua maneira, de forma que como os fariseus escolhe se guarda ou não os mandamentos, tornando-os apenas um ideal?

- sobre os mandamentos foram ajudados a reflectir e viver os 3 primeiros que se refem a Deus? No amor e dever que é praticado procurando conhecê-Lo e adorá-Lo?

- cresceram na vivência e noção de que o amor de Deus e a Fé cristã não é uma espiritualidade que escolhemos para enriquecer a nossa vida, da mesma forma que podíamos escolher outra forma espiritual, mas sim a relação com o Deus único e verdadeiro, é abrir os olhos para a realidade do mundo e da vida e a partir do Deus criador de todas as coisas e do Seu Filho edificarmos a nossa vida em Cristo?

- aos jovens foram dados os intrumentos para crescerem na sabedoria e vida cristã, pelo menos tendo a noção do que existe, e onde podem procurar e edificar-se? (principios da filosofia escolástica, demonstração da existência de Deus, apologética cristã, enciclicas e outros textos da Igreja,etc.)

- os jovens cresceram e reflectiram na visão escatológica da vida, dos fins últimos do Homem?

- os jovens reflectiram de que existe um caminho do Bem, da vida, do amor e da paz que é o caminho de Cristo e de que fora d'Ele começa o caminho do Mal, da indiferença e do ódio?

- cresceram no reconhecimento de que Cristo é Rei, a quem foi dado todo o poder no Céu e na Terra, Senhor do universo, única fonte da paz? Sendo não apenas Rei dos corações mas Rei a partir do qual se edifica a sociedade e a vida? Que devemos restaurar e edificar todas as coisas em Cristo?

- as crianças e jovens foram ajudados a crescer na oração, no silêncio, meditação e contemplação?

- as crianças e jovens sabem e sentem que o pároco é como Cristo, doa a vida para a nossa santificação e salvação, não é apenas animador de uma comunidade?

- as crianças e jovens sentem e vivem a missa como oração para honrar e glorificar a Santissima Trindade, como agradecimento a Deus por todas as graças recebidas, como satisfação da justiça de Deus pelos pecados dos Homens e como fonte de todas as graças e bençãos para nós, para os pecadores e para os que partiram a caminho do Pai?

- as crianças e jovens reconhecem, sentem e vivem Cristo presente na Hóstia Sagrada, presente em Corpo, Alma e Divindade?

- as crianças e jovens na missa foram ajudados a colocarem a atenção em Cristo, a abrirem-se ao silêncio e a unirem-se intimamente a Cristo recebido na Hóstia Sagrada?


- aos catequistas aplicando a si mesmos as questões acima, onde está Deus para mim e onde está a fonte e centro da minha vida cristã?

- aos catequistas, a minha entrega e missão está edificada no levar o Evangelho a toda a parte, ajudando e ensinado as crianças e jovens a viver a vida cristã, a edificarem-se em Cristo, crescerem na Fé e na Verdade conhendo melhor Deus e o que nos revelou?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O nosso dever

Há alguns domingos atrás foi-nos feita uma exortação e dado um exemplo que nos nossos dias nos pode parecer estranho ou difícil. As passagens a que me refiro são as seguintes:

"Entretanto, a Igreja gozava de paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e vivendo no temor do Senhor e ia crescendo com a assistência do Espírito Santo." (da leitura I Actos 9, 26-31).

"Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável»." (da leitura I Actos 10, 25-26.34-35.44-48)

Nestas passagens é nos apresentado o temor de Deus como fazendo parte da vida cristã, da sua importância no crescimento dessa vida e do quanto é agradável a Deus.

Uma sociedade que cada vez mais se esquece de Deus e vive-lhe indiferente, que coloca o Homem como fonte, centro e destino de toda a atenção (isto vem dos erros do iluminismo e do renascimento, em que o Homem ilumina a sua vida pelo seu intelecto e capacidades e renasce por si mesmo, em vez de se iluminar pela luz que é Cristo e renascer na Verdade no baptismo), dificilmente compreende e aceita o temor de Deus.

Vamos tentar acender esta luz que Deus nos dá.

O que é o temor de Deus?
"O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria;
são prudentes todos os que o praticam.
O seu louvor permanece eternamente."
(Salmo 110, 10)

O temor de Deus é o princípio da sabedoria e como vimos nas leituras acima faz parte da edificação da Igreja e da vida cristã que é agradável a Deus. O temor de Deus é um dos dons do Espírito Santo.

Começamos pelo que não deve ser o temor de Deus.
Este não deve ser o medo e temor mundano, com medo de sofrer algo na nossa integridade física, de perda de algo temporal, não deve ser um medo do sofrimento ou do castigo.

O temor de Deus tem duas faces: o reconhecimento de Deus como Senhor e o reconhecimento de Deus como Pai. É o que rezamos no Credo, "Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso...Creio em um só Senhor, Jesus Cristo... Creio no Espírito Santo. Senhor que dá a vida". Deus é Senhor, nós somos as suas criaturas e ao mesmo tempo pelo baptismo Deus é nosso Pai e nós somos Seus filhos adoptivos. Assim, o temor parte do reconhecimento destas duas relações que temos com Deus e do reconhecimento dos nossos deveres, dos dons e graças que recebemos a partir dessas duas relações.

É no reconhecimento da grandiosidade destas duas relações e da resposta que devemos dar a elas que se coloca o temor. Seremos capazes de Lhe corresponder, de seguir o caminho certo e de responder adequadamente? Não o ofender, não ser um mau filho, não ser o servo mau e preguiçoso?
Felizmente Deus dá-nos a Graça para o conseguirmos, Jesus deu-nos a Igreja como barca de salvação, os sacramentos, o Santo Sacrifício da missa, o Espirito Santo que nos acompanha, etc., tudo isso para vivermos e seguirmos na Graça de Deus, guardando os Seus mandamentos. Estes não são um fardo nem apenas um ideal, são a vida que Deus quer que vivamos, é onde está a verdadeira felicidade e único caminho para O alcançarmos.
É perante esta grandeza de Senhor e Pai que nos pede para seguirmos um caminho e ao mesmo tempo nos dá o que necessitamos que se coloca o temor de Deus. Compreendemos a gravidade do pecado, a grandeza da majestade e do amor de Deus, aos quais devemos corresponder.

Deus é Senhor

No Evangelho o Senhor lembra-nos essa primeira relação: "Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar na Geena. Sim, Eu vo-lo digo, a esse é que deveis temer." (Lc 12, 4-5).
Deus criou-nos para O conhecermos, amar-mos e adorar-mos, deu-nos a vida e é o criador de todas as coisas, é imenso e todo-poderoso, é infinitamente bom, justo, misericordioso e santo.
Ao mesmo tempo deu-nos um caminho de salvação, onde quem acreditar será salvo e quem não acreditar será condenado.

Diante da Sua magestade e da Sua grandeza vemos e percebemos o abismo que existe entre nós Deus. Ao mesmo tempo surge o medo de ofender a Deus com o pecado, pois quem ama de facto o Senhor teme perder a Sua amizade, pois com o pecado reduzimos ou perdemos a Graça de Deus.

Deus é Pai

Deus pela redenção alcançada por Cristo torna-nos Seus filhos adoptivos no baptismo, quer que vivamos na Sua Graça, que a nossa vida seja uma oração, louvor e acção de graças ao Seu amor, quer que levemos o Seu amor ao mundo e o santifiquemos. Quer que sejamos salvos e não nos percamos.

Diante de tamanho amor surge o medo de Lhe não correspondermos, o ofendermos, não vivermos e transmitirmos esse mesmo amor e caridade. Aqui surge também a piedade, que também é um dom do Espírito Santo, em que com temor também temos a devoção, o fervor e a experiência de viver em comunhão com Deus.

O temor de Deus

Teme a Deus quem procura praticar os seus mandamentos com sinceridade de coração. Quantas vezes tememos mais a justiça dos Homens do que a justiça de Deus! Santo Anastácio a este respeito dizia: "A quem devo temer mais, a um homem mortal ou a Deus, por quem foram criadas todas as coisas?".
Por este divino dom, torna-se Deus a pessoa mais importante em nossa vida, onde a alma docemente afasta-se do erro pelo temor em ofendê-Lo com nossos pecados. Por este dom não queremos que Deus seja ofendido, por nós nem pelo próximo. Tememos as consequências do afastamento de Deus.
Este dom ajuda-nos a evitar tudo o que nos afasta d'Ele, não por medo do castigo mas pela justa consciência de que ao nos afastarmos d'Ele, nós próprios O perdemos voluntariamente.

 O nosso dever

Os fariseus viviam segundo uma duplicidade, tinham a Lei mas depois a moldavam conforme o que mais lhes convinha. O Senhor mostrou a hipocrisia dos fariseus, veio levar a Lei à perfeição para que viver no amor e na Graça de Deus seja guardar os mandamentos, que se reflectem em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
A vida cristã tem uma coerência que se vive nos mandamentos, no amor, misericórdia e justiça, assim a nossa oração deverá estar conforme a nossa vida e a nossa vida molda-se também pela nossa oração. A lei da oração é a lei do coração.

Na missa no prefácio da oração eucarística o sacerdote e os fiéis rezam as seguintes orações:
O Senhor esteja convosco.
R: Ele está no meio de nós.
Corações ao alto.
R: O nosso coração está em Deus.
Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R: É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte por Cristo, nosso Senhor.

No prefácio da oração eucarística vemos então o reconhecimento de Deus, Pai santo, Deus eterno e omnipontente perante o qual é nosso dever e nossa salvação dar-mos graças, sempre e em toda a parte. A oração molda a nossa vida e a nossa vida deve ser coerente com a oração, com este reconhecimento. Peçamos a graça do dom do temor de Deus para que cresçamos na santidade, no amor e na piedade, para vivermos uma vida cristã como Cristo nos mostrou e ensinou, coerente na perfeição da Lei e do amor de Deus.

O concilio Vaticano II afirmou que a missa é a fonte e centro da vida cristã, esta expressão faz-me pensar o que na missa leva-nos ou não a aproximar-nos de Cristo. A participação activa exige muito mais do que ouvir e fazer, é necessário também um compromisso pessoal e uma compenetração do sentido que a missa tem na salvação, é necessário o desejo de seguir Cristo e ser seu discípulo, dar espaço e tempo para Ele proporcionando e rezando num ambiente de recolhimento e apartamento do mundo que facilite esse encontro pessoal com Cristo. Aprendermos a estarmos ao serviço de Cristo, dando-Lhe o lugar principal de forma a que cada um se aproxime da fonte, deixar que Cristo fale a cada um, fazer do santuário uma janela para o Céu. 

"Esta é, na verdade, a vontade de Deus: a vossa santificação" (1 Ts 4,3) e por isso vamos ao Altar de Deus.

Devemos viver no amor de Deus, compreendendo que Deus é amor mas o amor não é Deus. A vida que Deus nos quer dar é um mergulhar na Sua própria existência, onde no mundo natural elevamos o olhar para o sobrenatural e eterno. É isso que o Senhor nos pede.

Perante o esquecimento de Deus por parte da sociedade e do relativismo devemos crescer na Fé, procurar e conhecer a Verdade, perseverando na Igreja de Cristo.

Assim devemos perseverar na vida crisã, seguindo o desejo dos simples e humildes: viver na graça de Deus e alcançar no Céu os braços do Pai, Senhor todo-poderoso. E como eles nos ensinaram o temor de Deus é o início da sabedoria.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A missa tradicional - Ofertório

Apresento as orações do ofertório na missa do Papa Beato Paulo VI e na missa tradicional (missal 1962 do Papa São João XXIII).
Na missa na forma do Papa Beato Paulo VI é a parte depois da oração universal e antes da oração eucarística. Na missa tradicional é a parte depois do Credo e antes do Cânon Romano.

Vale a pena ler, rezar e reflectir nas belas orações da missa tradicional pela riqueza que apresentam.

Missal Papa Beato Paulo VI

Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos da vossa bondade, fruto da terra e do trabalho do homem, que hoje Vos apresentamos e que para nós se vai tornar Pão da vida.

Bendito seja Deus para sempre.

Pelo mistério desta água e deste vinho sejamos participantes da divindade d’Aquele que assumiu a nossa humanidade

Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo vinho que recebemos da vossa bondade, fruto da videira e do trabalho do homem, que hoje Vos apresentamos e que para nós se vai tornar Vinho da salvação.

Bendito seja Deus para sempre.

De coração humilhado e contrito sejamos recebidos por Vós, Senhor. Assim o nosso sacrifício seja agradável a vossos olhos.

Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado.

Orai, irmãos, para que o meu e vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai todo-poderoso.

Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício, para glória do seu nome, para nosso bem e de toda a santa Igreja.

o sacerdote diz a ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS.

Amen.
Missal 1962 Papa São João XXIII

O Senhor seja convosco.
R. E com vosso espírito.

«Reza a oração colecta conforme a missa do dia»

Recebei, santo Pai, onipotente e eterno Deus, esta hóstia imaculada, que eu vosso indigno servo, vos ofereço, ó meu Deus, vivo e verdadeiro, por meus inumeráveis pecados, ofensas, e negligências, por todos os que circundam este altar, e por todos os fiéis vivos e falecidos, a fim de que, a mim e a eles, este sacrifício aproveite para a salvação na vida eterna. Amém.

Ó Deus, que maravilhosamente criastes em sua dignidade a natureza humana e mais prodigiosamente ainda a restaurastes, concedei-nos, que pelo mistério desta água e deste vinho, sermos participantes da divindade daquele que se dignou revestir-se de nossa humanidade, Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor Nosso, que sendo Deus convosco vive e reina em união com o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Nós vos oferecemos Senhor, o cálice da salvação, suplicando a vossa clemência. Que ele suba qual suave incenso à presença de vossa divina majestade, para salvação nossa e de todo o mundo. Amém.

Em espírito de humildade e coração contrito, sejamos por vós acolhidos, Senhor. E assim se faça hoje este nosso sacrifício em vossa presença, de modo que vos seja agradável, ó Senhor Nosso Deus.

Vinde, ó Santificador, onipotente e eterno Deus e, abençoai este sacrifício preparado para glorificar o vosso santo nome.

«não inclui aqui as orações de insenção do Altar»

Lavo as minhas mãos entre os inocentes, e me aproximo do vosso altar, ó Senhor, para ouvir o cântico dos vossos louvores, e proclamar todas as vossas maravilhas. Eu amo, Senhor, a beleza da vossa casa, e o lugar onde reside a vossa glória. Não me deixeis, ó Deus, perder a minha alma com os ímpios, nem a minha vida com os sanguinários. Em suas mãos se encontram iniqüidades, sua direita está cheia de dádivas. Eu porém, tenho andado na inocência. Livrai-me, pois, e tende piedade de mim. Meus pés estão firmes no caminho reto. Eu te bendigo, Senhor, nas assembléias dos justos. Glória ao Pai...

Recebei, ó Trindade Santíssima, esta oblação, que vos oferecemos em memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e em honra da bem-aventurada e sempre Virgem Maria, de são João Batista, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de todos os Santos; para que a eles sirva de honra e a nós de salvação, e eles se dignem interceder no céu por nós que na terra celebramos sua memória. Pelo mesmo Cristo, Senhor Nosso. Amém.

Orai irmãos, para que este sacrifício, que também é vosso, seja aceito e agradável a Deus Pai Onipotente.

R. Receba, o Senhor, de vossas mãos este sacrifício, para louvor e glória de seu nome, para nosso bem e de toda a sua santa Igreja.

Amém.

«Reza a oração secreta conforme a missa do dia»
  ..Por todos os séculos dos séculos.

Amém.

O ordinário da missa do Papa Beato Paulo VI pode ser consultado aqui: http://www.liturgia.pt/ordinario/ordinario.pdf

O ordinário da missa tradicional de 1962 do Papa São João XXIII pode ser consultado aqui: http://www.missatridentina.com.br/index.php/material-de-apoio-sp-473651883/material-de-apoio/61--1/file

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A missa tradicional

Homilia do Arcebispo Sample, de Portland nos Estados-Unidos, sobre a missa tradicional na forma extraordinária do rito romano.
Vale a pena escutar para perceber porque também devemos celebrar e conhecer a missa tradicional:


A minha tradução da homilia para português, com base no texto em inglês obtido neste excelente artigo do OnePeterFive:
[00:00:00] Em nome do Pai e do filho do Espírito Santo.

[00:00:06] Meus queridos irmãos e irmãs no Ressuscitado, é com a maior alegria que hoje me reúno com todos vocês neste lindo Santuário Nacional dedicado à nossa Santíssima Virgem sob o título de Imaculada Conceição - padroeira do nosso grande país. Estamos no santuário de Maria e estamos todos cheios de gratidão e alegria. Celebramos hoje esta Santa Missa em honra do Imaculado Coração da Bem-Aventurada Virgem Maria. Somos todos pecadores, mas em seu Coração Imaculado encontramos refúgio, consolo, proteção, força e o amor de seu abraço materno.

[00:01:31] Assim como Santa Maria ficou ao pé da cruz do nosso Divino Salvador, onde o seu coração foi perfurado pela espada da tristeza. Assim, ela permanece ao nosso lado hoje, aos pés deste altar, enquanto nós sacramentalmente re-apresentamos o sacrifício que Cristo realizou de uma vez para sempre.

[00:02:07] Como nos recorda o documento do Concílio Vaticano II sobre a sagrada liturgia - referenciando os ensinamentos do Concílio de Trento - Cristo que ofereceu-se formalmente de maneira sangrenta no altar da Cruz é agora oferecido sacramentalmente e de maneira incruenta no Santo Sacrifício da Missa. E Sua Santa Mãe une-se a nós neste oferecimento na grande comunhão de todos os santos.

[00:02:55] Também nos reunimos para celebrar o décimo aniversário do grande presente que o nosso amado Papa Bento XVI deixou à Igreja no seu motu proprio, Summorum Pontificum. Caro Santo Padre, sei que falo em nome de todos os que estão aqui reunidos, dos que assistem a esta transmissão ao vivo através da EWTN e de muitos outros quando agradeço por sua sabedoria, visão e generosidade pastoral ao permitir que o usus antiquior do Rito Romano mais uma vez floresça na Igreja Universal.

[00:03:54] Ao nos reunirmos aqui hoje nesta magnífica basílica, não podemos deixar de notar a presença muito grande de jovens que vieram para participar desta Santa Missa. Conheci um bom número de vocês pessoalmente. Você são um sinal - um grande sinal - de encorajamento e esperança para a Igreja jogada nestes dias nas turbulentas águas do secularismo e do relativismo. Como se costuma dizer, vocês compreendem. Vocês compreendem o vosso lugar no mundo e na Igreja para ajudar a reconstruir uma cultura de vida na sociedade e uma renovação da cultura católica dentro da própria Igreja.

[00:05:04] Ao longo dos anos, desde o lançamento do Summorum Pontificum, ouvi muitos na Igreja - incluindo padres e bispos - expressarem perplexidade e desânimo por que tantos jovens são atraídos para esta forma venerável do Rito Romano. Eles dizem coisas como: "Eu simplesmente não entendo. Como eles poderiam se sentir tão atraídos por uma forma de liturgia com a qual não cresceram nem viveram anteriormente?”. Se o comentário foi dirigido a mim, eu sempre respondi “Essa é exatamente a pergunta que você deveria fazer. Porque eles são atraídos para esta liturgia? Ou talvez mais incisivamente. O que é que esta forma do Rito Romano tem para eles que sua própria experiência crescendo com a Forma Ordinária não forneceu? Isso nos dará uma visão de como será o futuro desenvolvimento litúrgico”.

[00:06:38] Agora eu não quero ser mal interpretado. Não estou, de forma alguma, questionando a reforma litúrgica que foi realmente pedida pelo Concílio Vaticano II. Tampouco questiono a legitimidade da validade ou mesmo da bondade do missal promulgada pelo beato Paulo VI. Mas talvez na implementação real das diretivas do concilio nem tudo o que aconteceu tenha dado bons frutos. E, certamente, através dos abusos litúrgicos, outras aberrações ou simplesmente um ars celebrandi pobre, a Forma Ordinária do rito romano foi muitas vezes desfigurada e experimentada como uma ruptura com o nosso passado litúrgico.

[00:07:54] Muitos jovens descobriram esta forma da sagrada liturgia como parte da sua própria herança católica. Eu mesmo descobri a missa latina tradicional como estudante universitário. Eu me deparei com isso. Mas para mim foi uma relíquia histórica e algo que eu nunca imaginei que eu realmente experimentaria. Talvez a experiência destes jovens que cresceram com a Forma Ordinária não levou consigo a sensação de beleza, reverência, oração plena, sentido do mistério, e transcendência que a missa tradicional em latim lhes proporcionou. Talvez esta seja a resposta para a pergunta acima sobre porque tantos jovens são atraídos para a Santa Missa celebrada de acordo com o missal de 1962.

[00:09:09] O Papa Bento XVI fez referência a isso na sua carta aos bispos do mundo que acompanhou a divulgação do Summorum Pontificum. Ao falar dos esforços do Papa São João Paulo para pastoralmente proporcionar áqueles ligados à liturgia tradicional - que o Santo Papa fez através de seu próprio motu proprio, Ecclesia Dei, em 1988 - o Papa Bento XVI escreveu: “Imediatamente após o Concílio Vaticano II presumia-se que os pedidos para o uso do missal de 1962 seriam limitados às gerações mais velhas que haviam crescido com ele. Mas, entretanto, ficou claramente demonstrado que os jovens também descobriram essa forma litúrgica, sentiram a sua atração e a encontraram como uma forma de encontro com o mistério da Sagrada Eucaristia, particularmente adequada a eles. Assim, surgiu a necessidade de uma regulamentação jurídica mais clara que não estava prevista na época do motu proprio de 1988. ”

[00:10:40] Agora, não quero esquecer a geração mais velha de católicos que permaneceram ligados a essa antiga liturgia. Vocês são também importantes. Esta é a Missa da época que alimentou a vida de fé de gerações e gerações de católicos - incluindo a geração dos meus pais. Eu sempre penso sobre isso. Esta é a missa em que os meus avós participaram. Esta é a missa que alimentou a fé e a devoção de minha mãe enquanto crescia. Deus descanse sua alma. Esta é a missa que atraiu o meu pai para a Igreja e ajudou a alimentar a sua conversão. Esta é a missa que produziu santos.

[00:11:53] Acredito que uma das frases mais importantes na carta do Papa Bento XVI mencionada acima é a seguinte: “Não há contradição entre as duas edições do Missal Romano. Na história da liturgia, há crescimento e progresso, mas não ruptura. O que as gerações anteriores consideraram como sagrado permanece sagrado e grande para nós também, e não pode ser de repente totalmente proibido ou mesmo considerado prejudicial. Cabe a todos nós preservar as riquezas que se desenvolveram na fé e oração da Igreja e dar-lhes o devido lugar. ”

[00:12:53] Enquanto continuamos a nossa celebração do décimo aniversário do Summorum Pontificum, desejo abordar um último ponto. Isto tem a ver com a motivação do papa emérito em emitir o motu proprio. Ele disse que é uma questão de chegar a uma reconciliação interior no coração da Igreja.

[00:13:29] Durante a minha visita ad limina a Roma no ano de 2012, e durante a nossa visita ao Papa Bento XVI, tive a oportunidade de lhe agradecer pelo dom do Summorum Pontificum. Ele respondeu longamente à minha intervenção, começando por dizer que havia emitido o Motu proprio para reconciliar a Igreja com o seu passado. Esta reconciliação da qual o papa emérito falou envolve aprender com a experiência da Sagrada Liturgia segundo o usus antiquior, a fim de melhor informar e moldar a nossa compreensão e celebração do mais recente Rito Romano. Com ambas as liturgias florescendo lado a lado, poderia haver um mútuo enriquecimento das duas formas do único Rito Romano, talvez levando a u maior desenvolvimento e progresso litúrgico. Depois de mencionar algumas maneiras pelas quais o Missal Romano de 1962 poderia ser enriquecido pelo mais recente Missal Romano, o Papa Bento XVI disse que a forma mais antiga da liturgia poderia enriquecer a nova forma: “A celebração da Missa segundo o missal de Paulo VI será capaz de demonstrar mais poderosamente do que tem sido o caso até agora a sacralidade que atrai muitas pessoas ao uso anterior".

[00:15:20] A garantia mais segura de que o Missal de Paulo VI pode unir as comunidades paroquiais e ser amado por elas consiste em ser celebrado com grande reverência em harmonia com as diretrizes litúrgicas. Isso trará a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste missal.

[00:15:43] Acredito que esta é uma chave para interpretar o desejo do Papa Bento XVI, a saber, que o florescimento da forma mais antiga da liturgia com a sua beleza, reverência e sacralidade irá causar um desenvolvimento natural e enriquecimento da forma em que a nova missa é celebrada. Como ele diz que não pode e não deve haver uma ruptura entre as duas formas, deve-se reconhecer o antigo Rito Romano no mais novo. Muitas vezes tenho a impressão de que muitas pessoas na igreja vivem suas vidas como se a igreja tivesse pressionado um botão de reset no Vaticano II, e que o passado não tivesse mais relevância, especialmente em relação à Sagrada Liturgia. Deve haver mais crescimento e desenvolvimento litúrgico nos moldes de uma hermenêutica de continuidade com o passado e qualquer experiência de ruptura deve chegar ao fim. Que assim seja.

[00:17:03] E assim meus queridos irmãos e irmãs, agradeçamos a Deus pela vida, pelo ministério pastoral e pela coragem do Papa Bento XVI. Vamos agradecer ao Senhor pelo presente que o papa Bento nos deu - a maior celebração e disponibilidade da forma antiga da nossa herança comum no Rito Romano. Rezemos pelo Papa Bento XVI para que o Senhor lhe conceda paz e alegria durante o tempo que o Senhor permite que ele esteja nesta terra orando e se sacrificando por nós. Nós levamos agora as nossas orações de gratidão ao maior de todos os actos de acção de graças: a celebração da Santíssima Eucaristia.

[00:17:59] Vamos então até ao altar de Deus.

[00:18:02] Em nome do pai e do filho e do Espírito Santo.

Motu Proprio Summorum Pontificum do Papa Bento XVI

Carta do Papa Bento XVI aos Bispos

A celebração completa da missa tradicional pode ser vista aqui:

Partilho também o testemunho do Bispo Emérito do Funchal, D. Teodoro, sobre a missa tradicional, que o blogue Senza Pagare nos partilhou aqui:

"Bispo português explica a importância da Missa Antiga nos nossos dias
 
Sobre a Constituição da Sagrada Liturgia, tive a ocasião de escrever este ano, após 50 anos do Concílio, algumas considerações nas Pedras Vivas, no Jornal da Madeira e revi a legislação Pontifícia do Papa João Paulo II sobre a faculdade do uso do Missal Romano editado em 1962 pelo Papa João XXIII, e em 1988 com a carta apostólica Ecclesia Dei. O Papa Bento XVI, com a carta apostólica sob forma de Motu próprio, regularizou o uso do «rito tradicional» ou «missa tridentina», também chamada a «missa de sempre» de S. Pio V.

Ao ser convidado pelos Cavaleiros de Colombo (Knights of Columbus) para nos Estados Unidos promover a Liga de Orações (Gebetsliga), para a canonização do beato Carlos de Áustria, a organização dos «cavaleiros» procurou informar-se se eu sabia latim, e conhecia o canto gregoriano para a celebração da Eucaristia, devido a terem adaptado o «rito antigo», ou «rito romano clássico», em latim, como fora regulamentado pelos Papas para a Igreja latina.

A minha resposta foi afirmativa. Durante os dez primeiros anos de sacerdócio celebrei a missa em latim, cantei todas as missas em gregoriano, tanto no Funchal, como em Roma, e nos países onde estudei línguas (França, Inglaterra, Alemanha, Jordânia e Israel). Além disso, como aluno das Universidades Gregoriana e Bíblico, sempre tive aulas e exames em latim. Após o Concílio, já em Roma, celebrei a missa em italiano e português, tendo usado o latim nos grandes santuários internacionais como Lourdes, Roma, Londres, Paris e Jerusalém.

Na visita pastoral aos Estados Unidos às comunidades portuguesas celebrei sempre em português e inglês. Desta maneira o encontro com os Cavaleiros de Colombo proporcionou-me um conhecimento actual da enorme expansão do rito tradicional, ou latim, nos Estados Unidos, o que acontece também em grande escala no Canadá, Brasil, Argentina, França, Suíça e, de forma mais reduzida noutros países católicos do mundo. Portugal é conhecido por não ter celebrações em latim, a não ser algumas partes do Cânone em Fátima, sendo a língua de Cícero cada vez mais desconhecida de padres e bispos portugueses. De facto, na diocese do Funchal durante os 25 anos de ministério episcopal nunca celebrei pontifical ou missa solene em latim e, em relação com o canto gregoriano, procurei que ele não se extinguisse, como recomenda a Congregação para o Culto Divino, ao menos para as melodias simples.

Quem reabrir os documentos conciliares encontrará na Constituição sobre a Sagrada Liturgia (nº 36, §1): “Deve conservar-se o uso do latim nos Ritos Latinos, salvo o direito particular”, e (nº 101, §1), diz-se que, conforme à tradição secular do rito latino, a língua a usar no Ofício Divino é o latim, contudo o ordinário pode dar a «faculdade de usar uma tradução em vernáculo». Quanto à Música Sacra, (no cap. VI nº 116), «a Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana, o canto gregoriano», não «excluindo todos os outros géneros de música sacra».

Atmosfera de oração e reverência

A visita de Outubro aos Estados Unidos apresentou-me um panorama espiritual novo na celebração da Eucaristia que muito me impressionou, tanto na missa em latim, como em grego, nos ritos orientais dos católicos ucranianos. Até alguns jovens acólitos e meninos da catequese, respondiam e cantavam em latim, e em grego no rito oriental de São João Crisóstomo. É certo que os fiéis participam normalmente no culto em inglês, mas um vasto número de jovens padres, leigos e fiéis descobrem na missa tradicional o sentido sagrado ou do celeste que se atenuou na missa em língua vernácula, dizendo que se colocou o homem no centro da celebração e não Cristo Senhor.

O Concílio Vaticano II privilegiou na liturgia a “acção de Deus” ou “acção de Cristo”. Existe um perigo latente, o sacerdote pode pensar que ele é o centro da liturgia, e o rito pode apresentar o aspeto de teatro ou performance de um apresentador de televisão. O celebrante não é o protagonista da ação litúrgica, não é o ponto de referência, para ter mais sucesso perante o público. Embora não seja para imitar mas os budistas e os muçulmanos demonstram reverência a Deus quando oram, colocando a cabeça por terra.

O uso do latim apoia a universalidade da Igreja e da unidade dos fiéis, mas os missais ao lado do texto latino devem ter uma tradução na própria língua, como encontrei na catedral de Washington e noutras igrejas. É opinião comum dos que optaram pelo latim que a missa mantém melhor o silêncio interior e exterior e uma atmosfera de oração e reverência.

É permitida a missa em latim em todas as circunstâncias? Tudo foi regulamentado pelo Papa Bento XVI que, na Carta Apostólica, afirma que o Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da «lex orandi» (lei de orar) no rito latino; o missal romano, aprovado por São Pio V e reeditado pelo Papa João XXIII, deve ser considerado como expressão extraordinária da mesma «lei de orar» e gozar da devida honra pelo seu uso venerável e antigo, são dois usos do único rito romano. Por isso “é licito celebrar o sacrifício da missa segundo a edição típica do missal romano promulgado pelo beato João XXIII em 1962, e nunca abrogado, como forma extraordinária da liturgia da Igreja”.

Na Missa com ausência de povo, o celebrante pode celebrar tanto num rito como noutro, com excepção do Tríduo Pascal, e não necessita de autorização da Sé Apostólica nem do seu Ordinário. As comunidades ou Institutos de Vida Apostólica, nos conventos ou oratórios próprios, podem usar o missal de Pio V e, se quiserem de um modo frequente ou habitual, precisam da decisão dos seus Superiores Maiores. Nas paróquias, se houver um número notável de fiéis que prefira a missa em latim, aconselha-se o pároco a acolher o seu pedido, sob orientação do bispo diocesano para evitar a discórdia e desunião na Igreja. O bispo pode erigir uma paróquia pessoal para a celebração antiga.

Estas permissões foram concedidas a 7 de Julho de 2007 por Bento XVI e permitem compreender a sua expansão em centenas e milhares de igrejas nos EUA e noutros países. Celebrei num mosteiro de carmelitas que escolheu o rito latino e, em New York, no centro de Manhattan, na igreja dos Santos Inocentes celebra-se todos os dias a missa em latim com canto gregoriano às 18h, assim como se reza todas as semanas a missa pelas crianças não nascidas, devido aos abortos. Devo afirmar que nas igrejas onde celebrei em latim nunca faltou o número suficiente de padres e acólitos para o pontifical romano nem uma numerosa participação de fiéis que, algumas vezes, cantavam o gregoriano da própria festa.

Não o escrevo para ser imitado, mas entre os padres mais novos e alguns mais velhos, há uma natural procura da Missa em latim e canto gregoriano, levando alguns padres a um estudo mais profundo da língua latina. Que posso dizer destes factos? “Admiro-me com as turbas”, como dizia o Padre António Vieira. Afirmo também que não me envergonho de saber latim, nem cantar gregoriano, ou vestir os paramentos que usei nos primeiros anos do meu sacerdócio. O que torna o sacrifício eucarístico impuro, o que mancha e envergonha o espírito não são as vestes, o latim ou o cântico, mas o que São Paulo escreve ao discípulo Tito: “Todas as coisas são puras para os puros, mas para os impuros e infiéis nada é puro, porque o seu espírito e a sua consciência estão contaminados” (Tito 1, 15ss).

Funchal, 10 de Novembro de 2013
† Teodoro, Bispo emérito do Funchal"


A preparação para a primeira Comunhão

Passagens do livro do Monsenhor Álvaro Negromonte «A preparação para a primeira Comunhão» que mais do que uma preparação para a primeira Comunhão é sobretudo a preparação das crianças para que tenham realmente uma vida cristã.

Pode-se ler aqui: https://drive.google.com/open?id=1KrpHUba8l690aa0dD8ewxYkd6JeAUfcO

"O senso de Deus.
O que mais importa não é que a criança aprenda a definição de Deus - em termos abstratos - mas que:
- Tenha fé viva em Deus, seu Pai e Senhor;
- Saiba rezar, isto é, traduzir esta fé em atos de amor, de confiança no poder de Deus, no apelo a sua ajuda, no agradecimento a seus beneficios;
- Queira fazer a vontade de Deus: obedecer aos Mandamentos, conformar-se com o que Deus quer."

"não preparamos a criança para a primeira Comunhão, mas para a Comunhão. Não a preparamos para uma festa, mas para a vida eucarística, que só se encerrará com o Viático, e se perpetuará na Comunhão eterna! Nossa intenção é dar-lhe bases para a perseverança - na catequese e na vida cristã."

"é o que sabe e vive que realiza o verdadeiro cristão.
O verdadeiro cristão é aquele que crê conscientemente em Deus, em Cristo e na Santa Igreja, pratica os Mandamentos e recebe os Sacramentos, a fim de poder viver e crescer na Graça Divina. Formar esse cristão é a suma preocupação do catequista."

"antigamente a primeira educação religiosa era dada em família; mas hoje as crianças nos chegam com graves deficiências religiosas, às vezes sem saber o sinal da cruz e a Avé-Maria. De modo que o nosso primeiro trabalho não é ensinar-lhes fórmulas para que decorem, mas dar-lhes hábitos de vida cristã. Antes de ensinar-lhes orações, devemos ensiná-las a rezar. Antes da definição de Deus, demos-lhe uma noção pessoal de Deus Criador, grande e poderoso a quem pertence toda a nossa vida. E assim façamos da aula de Religião o motor de toda a sua vida, não apenas na classe na igreja, mas em toda parte e sempre."

"o essencial nesta preparação é dar à criança o desejo de comungar, porque a Comunhão é o alimento necessário à nossa vida cristã, a fonte da força que precisamos para conservar-nos em estado de graça ao longo de toda a nossa existência."


É esta geração de filhos para a Fé a principal missão da Igreja,
"Mãe e mestra de todos os povos, a Igreja Universal foi fundada por Jesus Cristo, a fim de que todos, vindo no seu seio e no seu amor, através dos séculos, encontrem plenitude de vida mais elevada e penhor seguro de salvação. A esta Igreja, "coluna e fundamento da verdade" (cf. 1 Tm 3, 15), o seu Fundador santíssimo confiou uma dupla missão: de gerar filhos, e de os educar e dirigir, orientando, com solicitude materna, a vida dos indivíduos e dos povos, cuja alta dignidade ela sempre desveladamente respeitou e defendeu.
O cristianismo é, de fato, a realidade da união da terra com o céu, uma vez que assume o homem, na sua realidade concreta de espírito e matéria, inteligência e vontade, e o convida a elevar o pensamento, das condições mutáveis da vida terrena, até às alturas da vida eterna, onde gozará sem limites da plenitude da felicidade e da paz."

da Mater et Magistra do Papa São João XXIII

Este exemplo de amor e testemunho na transmissão da Fé encontramos também no livro «Deus ou nada» do Cardeal Robert Sarah, no exemplo dos padres missionários espiritanos, que foram para uma remota aldeia da Guiné levar a Fé, e cuja maior forma de transmissão da Fé era a vida de oração que seguiam, a dedicação e entrega que colocavam no que faziam (até dando a própria vida), e o seu caminhar na presença constante de Deus.

terça-feira, 1 de maio de 2018

A vocação do sacerdote


"A vocação do sacerdote

Queridos Padres e Irmãos Cónegos da Abadia de Lagrasse,

Caros irmãos e irmãs em Cristo

Durante este tempo pascal, Deus concede-me a felicidade e a eminente graça de vir aqui, neste mosteiro, que é um Cenáculo de orações e louvores a Deus. Aqui, nesta casa, Jesus ressuscitado está constantemente presente e muito em breve, de maneira muito especial, nos visitará durante esta Santa Missa. Estou realmente muito feliz para celebrar a ordenação de Irmão Bento do Sagrado Coração, no contexto desta abadia amada de Lagrasse, que, como vocês sabem, liga-se a mim por laços espirituais e amigáveis. Como não posso pensar neste momento no Irmão Vicente Maria da Ressurreição, cujo apoio e presença afectuosa na minha vida diária continuo a ver concreta e agradecidamente: este apoio e presença manifestam-se por um poder de uma intercessão que é correspondida apenas pela coragem e compaixão que ele mostrou durante sua provação terrena, que todo dia o configurou e assimilou ao Cristo crucificado e ressuscitado.

Irmão Bento Sagrado Coração é ordenado sacerdote no dia da festa de Santo Anselmo, o monge beneditino da Abadia de Bec na Normandia, tornou-se arcebispo de Canterbury, e é conhecido como o "doutor magnífico", porque é especialmente o autor do famoso argumento ontológico sobre a existência de Deus. Foi ele quem exclamou sobre a vida contemplativa: "Santíssimo e muito bom Senhor, queres mostrar misericórdia aos teus servos. Para aqueles que retornam a si mesmos, você dá um novo coração e um novo espírito; você se estabelece em seu coração e em sua alma. Dê-se a mim e implante-se na minha alma "[1].

"Dai-vos a mim e implantai-vos na minha alma": esta é a graça que imploramos para o nosso Irmão Bento do Sagrado Coração neste dia glorioso em que lhe será dado a possibilidade de compartilhar no sacerdócio de Cristo. Mas para isso ele deve constantemente retornar a ele, no santuário de seu coração, que ele não permaneça fora e superficial como a maioria dos homens hoje.

"Tu és o sal da terra ... Tu és a luz do mundo", diz Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho deste dia, no coração deste tempo pascal. Cada pessoa baptizada é enviada em missão para um mundo que, por orgulho e indiferença, se afasta cada vez mais de Deus, um mundo "secularizado" onde Deus é excluído e ausente. Mas um mundo sem Deus é um mundo de trevas escuridão, confusão e perversão; Um mundo sem Deus é um mundo sem luz, mesmo que nossas cidades sejam continuamente iluminadas com múltiplas luzes artificiais. Desde o dia do nosso baptismo, nós cristãos e seguidores de Cristo somos chamados a nos tornarmos iluminados. Na verdade, os primeiros teólogos chamados Padres da Igreja, comparam Jesus com o Sol, fonte de luz, e nós homens, nós, os cristãos, com a lua, brilhando, certamente, mas apenas pela luz recebida do sol. Cristo é o Sol, fonte de vida e luz. Nossa missão, como cristãos, é reflectir a luz que recebemos de Cristo para iluminar todos os cantos da sociedade humana e de todas as nações do mundo. É exactamente assim que os primeiros cristãos entenderam isso. São Paulo fala aos Filipenses apelando para que os cristãos sejam "filhos de Deus sem mancha, no meio de uma geração perversa e corrompida; nela brilhais como astros no mundo." [2]. Se quisermos saber o que o mundo precisa
também hoje, como sempre, então vamos ver os primeiros cristãos! Eles foram chamados de "cristãos" porque confessaram a Cristo espalhando a luz de sua doutrina e se esforçaram para trazer aos homens o calor do seu amor. Ser cristão significava pertencer totalmente a Cristo, levar uma nova vida. Os primeiros cristãos estavam prontos, pela fidelidade a Cristo, a dar suas vidas e a morrer de modo que a luz do Evangelho resplandecesse e a presença de Cristo fosse mais radiante e tangível. E quem melhor do que o sacerdote pode manifestar a presença de Deus no meio de uma sociedade prejudicada por uma completa indiferença à questão de Deus e que, como diz São Paulo "se deixa levar por todo vento de doutrina" [3] e "correr atrás de uma multidão de mestres para atender os seus desejos de ouvir alguma novidade" [4]? Vamos fazer esta pergunta muito simples: o que é um padre?

A Bíblia apresenta o sacerdote como o homem da Palavra de Deus: "Portanto, vai ensinar todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" [5]. "Nós vamos embaixada por Cristo; é como se Deus estivesse exortando através de nós "[6]. Mas o que devemos ensinar? Bem, somente a Palavra de Deus e a doutrina, o ensinamento moral e disciplina da Igreja, a verdade sobre Deus, sobre Cristo e sobre o homem. O sacerdote é amplamente apresentado como o homem do perdão: "Recebe o Espírito Santo. Aqueles a quem você perdoará pecados, eles serão dados a eles, aqueles a quem você os reter, serão retidos "[7]. O padre também é apresentado como o amigo íntimo de Cristo: "Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. Já não vos chamo servos ... mas eu vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai, eu vos dei a conhecer. "[8] E, finalmente, o sacerdote é o homem da Eucaristia: "Faça isso em memória de mim" [9]. O padre é acima de tudo o homem da Eucaristia. Tenho o prazer de recordar aqui uma página luminosa do Papa São João Paulo II sobre a relação entre o sacerdócio e a Eucaristia:


"O sacerdócio, desde as suas origens, é o sacerdócio de Cristo. É ele quem oferece a Deus Pai o sacrifício do seu Corpo e do seu Sangue. E com seu sacrifício, ele justifica aos olhos de Deus, toda a humanidade e indirectamente toda a criação. O sacerdote, celebrando diariamente a Eucaristia, desce ao coração deste mistério. É por isso que a celebração da Eucaristia não pode deixar de ser, para ele, o momento mais importante do dia, o centro da sua vida. O padre age aqui, verdadeiramente "in persona Christi". O que Cristo fez no altar da cruz e que instituiu pela primeira vez e estabeleceu como sacramento no Cenáculo, o sacerdote renova com a força do Espírito Santo. Na celebração da Eucaristia, o sacerdote está tão envolvido pelo poder do Espírito Santo e as palavras que ele profere adquirem a mesma força e eficácia que as que saíram da boca de Cristo durante a Última Ceia" [10]

É por isso que ver um padre é "ver Jesus num homem". E o santo sacerdote de Ars afirma: "Se tivéssemos fé, veríamos Deus através do sacerdote como uma luz atrás de um copo, como vinho misturado com água ..." ... Se tivéssemos fé ... A ordenação sacerdotal do irmão Bento do Sagrado Coração deve-nos encorajar a olhar o sacerdote com os olhos da fé, desde que recebe o sacramento da Ordem, o nosso Irmão torna-se mais do que um "alter Christus"; de fato, configurado em Cristo, Cabeça do Corpo Místico que é a Igreja, o sacerdote é realmente "ipse Christus", o próprio Cristo. Não disse São João Vianney sobre ele: "O sacerdote é um homem que toma o lugar de Deus, um homem que está vestido com todos os poderes de Deus", mas ele imediatamente acrescentou: "Quão triste é um padre que celebra a missa como um momento comum! Quanto se perde um padre que não tem vida interior!"? Sim, a missa diária deve irrigar a vida de oração de cada sacerdote ... este é o fundamento da vida sacerdotal. A oração, o oficio divino, o face a face quotidiano com Deus constituem o coração de toda a vida sacerdotal. O sacerdote é essencialmente um homem de oração, um homem que permanece constantemente diante de Deus.Como cânone, é no coro desta abadia que o Irmão Benedito do Sagrado Coração é chamado a rezar a Liturgia das Horas. Este é o dia dos religiosos e dos sacerdotes: é a oração de adoração e súplica da Igreja, porque, como diz a Constituição sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II, "O Ofício Divino é verdadeiramente a oração de Cristo que ele, com seu Corpo místico, apresenta ao Pai "[11]. Para cumprir o Ofício Divino diariamente e em plenitude, é preciso coragem, fidelidade e perseverança no Amor, é necessário ter em sua alma um grande desejo de ver Deus face a face, esse desejo de que humildemente testemunhou o Irmão Vicente Maria da Ressurreição: Eu nunca deixo de meditar sobre esta viva chama do Amor sem palavras que se reflectiu na atitude de oferecimento deste religioso, ao mesmo tempo tão valente e tão humilde, no coração da sua indizível provação. Sim, o padre precisa de muitas lutas silenciosas, renúncias e sacrifícios para se separar do mundo e de suas preocupações, a fim de entregar-se total e absolutamente a Deus, porque ele deve constantemente lutar contra a superficialidade ou o activismo frenético e mundano que tende a banir Deus da nossa vida consagrada. Santo Anselmo, que celebramos hoje, pode ajudar-nos a não sucumbir a tais tentações: "Venha, coragem, pobre homem! Ele nos disse: "Vá um pouco mais longe, esconda-se por um momento do tumulto de seus pensamentos. Rejeite agora os cuidados pesados ​​e deixe de lado suas preocupações. Dê a Deus um momento e descanse um pouco nele. Entre na sala da sua mente, bane tudo, excepto Deus ou o que quer que possa ajudá-lo a procurá-lo. Feche a sua porta e procure por ele. Agora, fala, meu coração, abra-se todo e diga a Deus: ˝Eu procuro O seu rosto; é a Tua face, Senhor, que eu procuro" [12]. Assim, nas suas esmagadoras tarefas como Abade de Bec, e como Primaz da Igreja da Inglaterra, St. Anselmo acreditava que a oração era para irrigar toda a sua vida: o seus contemporâneos atestam que ao amanhecer o encontravam frequentemente ajoelhado diante do Santa Presença. Um dia na abadia de Bec, o Irmão zelador, cuja tarefa é acordar os monges para o canto de Matinas, viu na tenda do capítulo, uma luz brilhante, era o abade santo, rodeado por um halo de fogo. Da mesma forma, tenho a certeza que os Cânones da Mãe de Deus, cantando salmos todos os dias neste magnífico mosteiro, estão familiarizados com a exclamação do pai da restauração da vida monástica, Dom Prosper Guéranger: "Como se pode ser frio quando se canta estas coisas!" [13].

É, portanto, através deste espírito marcado pelo dom de si e o fervor que o sacerdote deve rezar o Ofício Divino, que o prepara para a celebração da Santa Missa e a prolonga, porque é a fonte e o culminar de toda a vida sacerdotal. A expressão de Nosso Senhor Jesus Cristo, presente no Evangelho deste dia, é dirigida a todos os baptizados, e mais particularmente aos sacerdotes: "sejam o sal da terra e a luz do mundo" deve ser entendida não como mero incitamento a difundir uma mensagem ou opinião entre outras, que permaneceria externa àquele que proclama a Boa Nova do Evangelho, mas como a epístola deste dia diz, é a oferta de uma vida, da nossa vida, que "sofre, realiza a obra de evangelização e leva até ao fim o ministério", neste caso o ministério sacerdotal, essencialmente centrado na celebração diária da Eucaristia. Você vê o quão exigente é ser padre! Mas, queridos irmãos e irmãs em Cristo, mesmo que vocês não sejam sacerdotes, é tão sério e tão exigente participar da celebração da Eucaristia, comer o Corpo e o Sangue do Cordeiro sacrificado, para comer aquela carne entregue, para beber aquele sangue derramado. Este acto é ainda mais grave porque nos compromete a levar, com Cristo, o Caminho desse Amor incondicional, o Caminho desse amor de Deus dado ao extremo, isto é, a doação de nós mesmos até à morte, mas uma morte que leva à vida eterna, à vida com Deus na eternidade.

Eu gostaria de concluir esta homilia evocando as vocações sacerdotais numa abadia que, graças a Deus saúda todos os anos novos candidatos. Como você sabe, na França, e mais genericamente nos países mais ricos do Ocidente cristão, sob a pressão da secularização, do ateísmo prático, do materialismo e do hedonismo, que em sua maior parte são a causa da apostasia e de uma perversão sem precedentes, também por causa da crise e até mesmo do colapso da família fundada no sacramento do matrimónio indissolúvel, temos uma falta de sacerdotes e seminaristas. Em 1931, há muito tempo atrás, o escritor francês François Mauriac escreveu estas linhas que permanecem muito actuais:

"Você diz que há falta de padres? ... Na verdade, que mistério adorável ainda haver sacerdotes! Em casa, nenhuma vantagem humana: nenhuma vantagem material, e mesmo muito frequentemente a pobreza, o celibato e a castidade que causam a suspeita de espíritos fortes, a solidão e também, muitas vezes, o escárnio, até mesmo ódio, especialmente a indiferença de um mundo onde parece não haver lugar para eles, tal é a parte que os sacerdotes escolheram! Acrescente a isso uma atmosfera pagã que os rodeia durante todo o caminho para tentar sufocá-los. O mundo riria de sua virtude se acreditasse nisso, mas não acredita. Então nós os observamos, nós os rastreamos. Mil vozes denunciam aqueles que caem. Entre os outros, o maior número, ninguém se surpreende ao vê-los trabalhar de forma obscura, a olhar para os corpos que agonizam, para percorrer os tribunais de patronato... As palavras de Cristo sobre eles se tornam realidade todos os dias: "Eu te enviei como ovelhas entre os lobos ... Você será odiado por todos por causa do meu nome" [14]. E, no entanto, desde há séculos, há homens que escolhem não ser humanamente consolados e até mesmo odiados. Eles escolhem perder a vida porque, uma vez, Alguém, no fundo de seu coração, fez essa promessa, que parece louca aos olhos do mundo: "Aquele que salvará sua vida a perderá; e quem perder a sua vida por minha causa achá-la."[15]

Irmão Bento do Sagrado Coração, em conclusão desta meditação sobre o sacerdócio, deixe-me confiá-lo à Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, oferecendo-lhe esta oração:

Virgem Maria, Mãe de Cristo Sacerdote

Mãe dos padres de todo o mundo,
você ama especialmente os padres,
porque são as imagens vivas do teu Único Filho.
Nós te imploramos, proteja os padres! Proteja o irmão Bento do Sagrado Coração.
Virgem Maria, peça você mesma a Deus Pai

os sacerdotes de que tanto precisamos;
e como o seu Imaculado Coração tem todo o poder sobre ele,
obtem-nos, ó Maria,

sacerdotes que sejam santos!

Amém!

Que Deus te abençoe e que Nossa Senhora do Sacerdócio te proteja!

Amém. Aleluia!

Cardeal Robert Sarah
Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos

[1] Cf. Patrologia latina de Migne, t. CLVIII, col. 923.

[2] Ph 2, 15.

[3] Veja Ep 4, 14.

[4] 2 Tim 4, 3-4.

[5] Mt 28,19.

[6] 2Co 5,20.

[7] Jo 20: 22-23.

[8] Jo 15, 14-15.

[9] Lucas 22 e 19.

[10] João Paulo II, Minha vocação, dom e mistério, por ocasião do 50º aniversário da minha ordenação sacerdotal, Bayard, Deer, Fleurus Mame, Téqui, 1999. Reedição, Palavra e Silêncio, 2013.

[11] n. 84.

[12] Santo Anselmo, Entrevista sobre a existência de Deus.

[13] Dom Prosper Guéranger, Prefácio Geral do "Ano Litúrgico".

[14] Veja Mt 10, 16-22.

[15] François Mauriac, New Cahiers, Segundo Livro, 1931. Ed. Saint-Paul, 1982."


Homilia do Cardeal Robert Sarah na ordenação sacerdotal do Padre Bento do Sagrado Coração dos Cânones da Mãe de Deus da Abadia de Nossa Senhora de Lagrasse, Sábado, 21 de Abril de 2018.
http://lanef.net/2018/04/27/la-vocation-du-pretre/