quinta-feira, 18 de abril de 2019

"Fazei isto em memória de Mim"

Do livro "A vida de Cristo" do Venerável Fulton J. Sheen:

"Todas as pessoas que vieram a este mundo vieram para viver. Ele veio para morrer. A morte foi um obstáculo para Sócrates - interrompeu o seu ensino. Mas para Cristo, a morte era o objectivo e o cumprimento da Sua vida, o ouro que Ele estava procurando. Poucas das suas palavras ou acções são inteligíveis sem referência à sua cruz. Ele apresentou-se como um Salvador e não apenas como um mestre. Não significava nada ensinar os Homens a serem bons sem também lhes dar o poder de serem bons, depois de resgatá-los da frustração da culpa.

A história de toda a vida humana começa com o nascimento e termina com a morte. Na Pessoa de Cristo, no entanto, foi a Sua morte que foi a primeira e a Sua vida que foi a última. A escritura descreve-o como "o Cordeiro imolado, por assim dizer, desde o princípio do mundo". Ele foi morto em intenção pelo primeiro pecado e rebelião contra Deus. Não foi tanto que o Seu nascimento lançou uma sombra em Sua vida e assim levou à Sua morte; foi antes que a cruz foi a primeira e lançou sua sombra de volta ao seu nascimento. A Sua foi a única vida no mundo que foi vivida em sentido inverso. Como a flor na fenda da parede diz ao poeta da natureza, e como o átomo é a miniatura do sistema solar, assim também, o Seu nascimento conta o mistério da forca. Ele passou do conhecido para o conhecido, da razão de Sua vinda manifestada por Seu nome "Jesus" ou "Salvador" para o cumprimento de Sua vinda, a saber, a Sua morte na cruz.

João dá-nos a sua pré-história eterna; Mateus, a sua pré-história temporal, por meio da sua genealogia. É significativo o quanto a Sua ascendência temporal estava ligada a pecadores e estrangeiros! Essas manchas na Sua linhagem humana sugerem uma compaixão pelos pecadores e pelos estranhos à Aliança. Ambos os aspectos da Sua compaixão seriam mais tarde lançados contra Ele como acusações: "Ele é amigo dos pecadores"; "Ele é um samaritano." Mas a sombra de um passado manchado prediz o Seu futuro amor pelos manchados pelo pecado. Nascido de uma mulher, Ele era um homem e poderia ser um com toda a humanidade; Nascido de uma virgem, que foi coberta pelo Espírito e "cheia de graça", Ele também estaria fora daquela corrente de pecado que infectou todos os homens.
"



1. Quando Cristo Senhor estava para celebrar com os discípulos a ceia pascal, na qual instituiu o sacrifício do seu Corpo e Sangue, mandou preparar uma grande sala mobilada (Lc 22, 12). A Igreja sempre se sentiu comprometida por este mandato e por isso foi estabelecendo normas para a celebração da santíssima Eucaristia, no que se refere às disposições da alma, aos lugares, aos ritos, aos textos. As normas recentemente promulgadas por vontade expressa do Concílio Vaticano II e o novo Missal que, de futuro, vai ser usado no rito romano para a celebração da Missa, constituem mais uma prova da solicitude da Igreja, da sua fé e do seu amor inquebrantável para com o sublime mistério eucarístico, da sua tradição contínua e coerente, apesar de certas inovações que foram introduzidas. Testemunho de fé inalterável.

2. A natureza sacrificial da Missa, solenemente afirmada pelo Concílio de Trento, de acordo com toda a tradição da Igreja, foi mais uma vez formulada pelo Concílio Vaticano II, quando, a respeito da Missa, proferiu estas significativas palavras: “O nosso Salvador, na Última Ceia, instituiu o sacrifício eucarístico do seu Corpo e Sangue, com o fim de perpetuar através dos séculos, até à sua vinda, o sacrifício da cruz e, deste modo, confiar à Igreja, sua amada Esposa, o memorial da sua Morte e Ressurreição”. Esta doutrina do Concílio, encontramo-la expressamente enunciada, de modo constante, nos próprios textos da Missa. Assim, o que se exprime de forma concisa nesta frase do Sacramentário Leoniano “todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício, realiza-se a obra da nossa redenção” –aparece-nos desenvolvido com toda a clareza e propriedade nas Orações Eucarísticas. Com efeito, no momento em que o sacerdote faz a anamnese, dirigindo-se a Deus em nome de todo o povo, dá-Lhe graças e oferece-Lhe o sacrifício vivo e santo; isto é, a oblação apresentada pela Igreja e a Vítima por cuja imolação quis o mesmo Deus ser aplacado; e pede que o Corpo e Sangue de Cristo sejam sacrifício agradável a Deus Pai e salvação para o mundo inteiro. Deste modo, no novo Missal, a norma da oração (lex orandi) da Igreja está em consonância perfeita com a sua ininterrupta norma de fé (lex credendi). Esta ensina-nos que, para além da diferença no modo como é oferecido, existe perfeita identidade entre o sacrifício da cruz e a sua renovação sacramental na Missa, a qual foi instituída por Cristo Senhor na Última Ceia, quando mandou aos Apóstolos que o fizessem em memória d’Ele. Consequentemente, a Missa é ao mesmo tempo sacrifício de louvor, de acção de graças, de propiciação, de satisfação.

3. O mistério admirável da presença real do Senhor sob as espécies eucarísticas, reafirmado pelo Concílio Vaticano II e outros documentos do Magistério da Igreja exactamente no mesmo sentido em que tinha sido enunciado e proposto como dogma de fé pelo Concílio Tridentino, é também claramente expresso na celebração da Missa, não somente nas próprias palavras da consagração, em virtude das quais Cristo se torna presente por transubstanciação, mas ainda na forma como, ao longo de toda a liturgia eucarística, se exprimem os sentimentos de suma reverência e adoração. É este o motivo que leva o povo cristão a prestar culto peculiar de adoração a tão admirável Sacramento, na Quinta-Feira da Ceia do Senhor e na solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.

4. Quanto à natureza do sacerdócio ministerial, exclusivo do presbítero que em nome de Cristo oferece o sacrifício e preside à assembleia do povo santo, a própria estrutura dos ritos, o lugar de preeminência e a função mesma do sacerdote a põem claramente em relevo. Os atributos desta função ministerial são enunciados explícita e desenvolvidamente na acção de graças da Missa crismal, na Quinta-Feira da Semana Santa, precisamente no dia em que se comemora a instituição do sacerdócio. Nesta acção de graças é claramente afirmada a transmissão do poder sacerdotal mediante a imposição das mãos; e é descrito este poder, enumerando as suas diversas funções, como continuação do poder do próprio Cristo, Sumo Pontífice da Nova Aliança.

5. Mas esta natureza do sacerdócio ministerial vem também colocar na sua verdadeira luz outra realidade de suma importância, que é o sacerdócio real dos fiéis, cujo sacrifício espiritual, pelo ministério dos presbíteros, é consumado na união com o sacrifício de Cristo, único Mediador. Com efeito, a celebração da Eucaristia é acção de toda a Igreja; nesta acção, cada um intervém fazendo só e tudo o que lhe pertence, conforme o posto que ocupa dentro do povo de Deus. E foi isto precisamente o que levou a prestar maior atenção a certos aspectos da celebração litúrgica que no decurso dos séculos não tinham sido suficientemente valorizados. Este povo é o povo de Deus, adquirido pelo Sangue de Cristo, congregado pelo Senhor, alimentado com a sua palavra; povo chamado para fazer subir até Deus as preces de toda a família humana; povo que em Cristo dá graças pelo mistério da salvação, oferecendo o seu Sacrifício; povo, finalmente, que pela comunhão do Corpo e Sangue de Cristo se consolida na unidade. E este povo, santo na sua origem, vai continuamente crescendo em santidade, através da participação consciente, activa e frutuosa no mistério eucarístico.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Cardeal Robert Sarah - "Le soir approche et déjà le jour baisse"

A crise da Fé

Em primeiro lugar temos de considerar que a fé é um dom de Deus, não é um trabalho humano, é um dom de Deus que recebemos da misericórdia de Deus.
Em que este consiste este dom?
Deus manifesta-se a nós como aquele que é o nosso caminho, aquele que é o nosso Pai, aquele que nos guia, e nós devemos confiar nele.
A fé é uma confiança absoluta em Deus, é nós confiarmos plenamente nele e termos uma absoluta certeza de que não cairemos porque é uma rocha sólida e a fé é também uma resposta de amor, Deus nos ama.
E nós respondemos a esse amor.
Esta resposta de amor manifesta-se através de uma vida de oração, uma vida de diálogo, uma vida de encontro, de intimidade com o Senhor e, no entanto, tem uma dimensão eclesial, contagiante.
Eu não recebo este dom sozinho, tenho que partilhar com os outros.
Uma fé que não é partilhada arrisca-se a morrer e a fé, que hoje em dia está em crise, é essa absoluta falta de confiança em Deus.
Nós vivemos como se Deus não existisse, é como se matássemos Deus e não necessitássemos d'Ele.
É a Igreja que deve, talvez, ser como a serva para trazer de volta este dom que é oferecido ao Homem de hoje, respeitando a liberdade de cada pessoa.
Não vamos forçar ninguém a acreditar, mas vamos ajudá-lo a direcionar a sua vida para a fonte da sua vida.
Todos nós temos uma fonte, como um rio tem uma fonte, o Homem tem uma fonte de vida, é Deus.

A crise sacerdotal

Esta crise remonta há muito tempo. Não se trata apenas de falar de uma crise do ponto de vista do número de sacerdotes, mas especialmente do ponto de vista de seu compromisso com Cristo, dA sua fidelidade ao celibato, do seu testemunho de vida.
Você vê que uma minoria se comporta de maneira escandalosa e ofende o trabalho dos 400.000 sacerdotes que permanecem fiéis e cumprem santamente a sua missão.
E assim, esta crise é real.
Naturalmente é necessário iniciar uma boa formação no seminário, um bom discernimento no recrutamento dos candidatos ao sacerdócio e uma boa formação contínua para que o sacerdote seja fiel à sua vocação missionária, ao seu compromisso com Deus e com a Igreja através do celibato, com o respeito escrupuloso do ensinamento da Igreja, porque aqui também, você sabe, muitos sacerdotes, muitos bispos, ensinam o que querem, contudo a minha doutrina de Jesus não é a minha doutrina, mas a do Pai, todo o sacerdote deveria dizer: "A minha doutrina é a doutrina de Deus, a doutrina da Igreja".
E assim, esta crise do sacerdócio é vasta, real, devemos enfrentá-la com serenidade e não temer em insistir em ir pedir aos sacerdotes que eles sejam santos sacerdotes, que eles tenham a doutrina da Igreja, a doutrina de Deus, que eles tenham um zelo missionário para tornar conhecido o reino de Deus.
Porque hoje poucos homens conhecem a Deus, poucos querem conhecê-lo. É por isso que Ele nos escolheu, precisamente, para que possamos cumprir essa missão de tornar seu reino conhecido, de tornar conhecido o seu amor.
E assim, é uma crise, na minha opinião, benéfica para nos despertar para a nossa missão e para a nossa identidade sacerdotal.



A crise na Igreja

A Igreja não é uma estrutura humana puramente social. A igreja é o prolongamento de Jesus. É Jesus, presente no meio dos homens e esta presença é manifestada pelo seu ensinamento, pela sua maternidade.
A Igreja é mãe e educadora.
Ela é uma mãe porque que todos renascemos quando somos batizados na fé da Igreja e ela é educadora porque nos faz crescer nessa fé.
Todos, quando recitamos o Credo, não é o nosso Credo que recitamos, mas o Credo da Igreja, o Credo da nossa mãe.
A Igreja é uma extensão de Jesus, ela é mãe e educadora.
A Igreja faz-nos crescer. E todo o mundo ama a sua mãe, todo o mundo está ligado à sua mãe.
Hoje, todos os cristãos devem se apegar à mãe, mesmo que a sua mãe seja leprosa, mesmo que a sua mãe esteja desfigurada por uma doença, ela continua sendo a sua mãe.
Você deve amá-la, você deve sempre ouvir a voz dela.
Hoje, estamos como que determinados a desfigurar a Igreja, a desprezá-la, a acreditar nela como sendo uma sociedade puramente social que deve lidar com questões sociais, questões de pobreza, questões que dizem respeito ao Homem. Mas a Igreja deve acima de tudo orientar o Homem para as preocupações reais que não são apenas humanas, mas também espirituais.
Ela é uma educadora para nos gerar na vida de Deus, nas preocupações de Deus. E assim, nós realmente temos que nos apegar a ela e amá-la.
É verdade que hoje a Igreja está em crise também. Não é ela quem está em crise, estamos em crise, nós, seus filhos.
Ela é sempre santa, ela é sempre bonita, ela não tem rugas, mas somos nós os filhos, desfigurados, que a desfiguram.
Somos nós que estamos em crise, não a Igreja como tal, porque a Igreja sempre ensina o que Cristo lhe pediu para ensinar.
A Igreja é sempre mãe, como sempre foi mãe, mas nós somos as crianças que já não ouvem a sua voz e ensinam apenas o que querem.
A crise está ao nível dos filhos da Igreja e portanto, é aos filhos da Igreja que será necessário, talvez, ajudar para que eles encontrem este ouvido atento, como Salomão. Este coração que escuta a sua mãe, como o coração de Salomão.




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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Ano missionário - Todos, Tudo e Sempre em Missão

Este ano estamos a viver um ano missionário que de acordo com a Conferência Episcopal vem assinalar o centenário da Carta Apostólica Maximum Illud do Papa Bento XV.

Vale a pena ler a carta apostólica do Papa Bento XV para compreendermos qual a missão a que somos chamados, eis alguns pontos:

- a missão que Nosso Senhor Jesus Cristo confiou aos seus discípulos continua "até ao fim dos tempos, isto é, enquanto existirem na terra pessoas para salvar pelo ensino da verdade."

- A Igreja de Deus, fiel ao mandato divino, nunca deixou, através dos tempos, de enviar a todo o mundo arautos e ministros da palavra divina que anunciassem a salvação eterna alcançada por Cristo para o género humano.

- Depois da descoberta da América, uma multidão de apóstolos consagrou-se à protecção dos indígenas contra a tirania humana, com a finalidade de os libertar da dura escravidão do demónio.

- Alguns deles, desejando a salvação dos irmãos, a exemplo dos Apóstolos, alcançaram o máximo da perfeição.

- é motivo de grande preocupação constatar como, depois de tantos sofrimentos associados ao anúncio da fé, depois de tantos trabalhos e exemplos de fortaleza, sejam ainda tantos os que permanecem nas trevas e nas sombras da morte

- querendo por compaixão e dever apostólico fazê-los participantes da redenção divina...cada dia aumenta mais, em várias partes da cristandade, o zelo dos bons na promoção e desenvolvimento das Missões no meio dos povos

- quem se consagra ao apostolado das Missões, abandona pátria, família e parentes; aventura-se frequentemente numa viagem grande e perigosa, disposto a suportar qualquer sofrimento a fim de ganhar mais pessoas para Cristo.

- quem preside a uma Missão...deverá responder pela salvação de todos os habitantes daquela região. Por essa razão não se deve contentar em ter conquistado para a fé, entre aquela multidão, alguns milhares de pessoas: procure cultivar e manter aqueles que ofereceu a Jesus Cristo, de maneira que ninguém regresse ao caminho da perdição. Não julgue ter conseguido completar o seu dever, se antes não tiver colocado todas as suas forças na cristianização também dos restantes que não conhecem Cristo, que é a missão maior.

- o superior da Missão...deve ser solícito apenas pela glória de Deus e a salvação das almas

- o superior da Missão...chame cooperadores de qualquer lado que o ajudem no seu ministério, sem se importar com a Ordem ou a nacionalidade, “desde que, de qualquer modo (…), Cristo seja anunciado”

- obras de caridade são um meio muito eficaz nas mãos da Providência divina para a propagação da fé.

- é conveniente que existam sacerdotes capazes de apontar aos seus concidadãos, como mestres e guias, o caminho da salvação eterna

- vós, queridos filhos que cultivais a vinha do Senhor e de quem depende mais directamente a propagação da verdade cristã e a salvação de tantas pessoas.

- é necessário que tenhais uma grande estima pela vossa sublime vocação. Tende em conta que a tarefa que vos está confiada é absolutamente divina e está acima dos pequenos interesses humanos, porque levais a luz a quem jaz nas sombras da morte e abris as portas do céu a quem estava a caminhar para o abismo.

- recordai-vos que não deveis difundir o reino dos homens, mas o de Cristo; não vos compete aumentar o numero de cidadãos para a pátria terrena, mas para a pátria celeste

- o Missionário [não] deve procurar outros ganhos que não sejam ganhar almas.

- procurar única e convenientemente a glória de Deus – como deve – e, para a promover salvando o seu próximo

- É frequente o Missionário encontrar-se sem livros e sem a possibilidade de consultar qualquer pessoa mais experiente, quando precisa de responder a objecções contra a fé e resolver questões e problemas difíceis

- não seria conveniente que os pregadores da verdade fossem inferiores aos ministros do erro.

- a pregação do Evangelho é a única finalidade para a qual foi enviado por Deus.

- aqueles que se preparam para o apostolado, é indispensável acima de tudo – como dissemos – a santidade de vida. É necessário que seja um homem de Deus aquele que prega Deus; e odeie o pecado aquele tal ódio ensina.

- Reconhecido para com Deus que o chamou para uma missão tão sublime, está disposto a tudo, a tolerar generosamente as dificuldades, os insultos, a fome, as privações, até a morte mais cruel, para resgatar uma só alma.

- a propagação da sabedoria cristã é, toda ela, uma intervenção divina, porque só Deus sabe entrar no íntimo de cada um, iluminar as mentes com o esplendor da verdade, acender nos corações a chama da virtude e fornecer ao homem as energias necessárias para que possa abraçar e seguir aquilo que ele reconheceu como verdadeiro e bom.

- quem terá mais necessidade da nossa ajuda fraterna do que aquele que desconhece Deus, estando à mercê das mais desenfreadas paixões e sob a duríssima tirania do demónio?

- todos aqueles que contribuem – segundo as próprias forças – para os iluminar, sobretudo ajudando a obra dos Missionários, prestam a Deus o testemunho mais agradável da sua gratidão por lhes ter dado o dom da fé.

- quando os Superiores tiverem conhecimento que os seus Missionários conseguiram felizmente trazer alguma população das superstições para a sabedoria cristã e aí tiverem fundado uma Igreja suficientemente estável, permitam que tais veteranos de Cristo se transfiram para ir resgatar outro povo das mãos do diabo, deixando a outros – sem lamentações – a tarefa de fazer crescer e melhorar o que eles próprios entregaram a Cristo.

- Quanto mais se deve observar a lei da caridade neste caso, tratando-se não só de socorrer uma infinita quantidade de gente que enfrenta a miséria e a fome, mas também e principalmente de resgatar uma multidão imensa da escravidão de satanás para a liberdade dos filhos de Deus? 
 
- Estimulados pelo seu exemplo, robustecer-se-ão as fileiras de missionários que, sustentados pelas orações e a generosidade das pessoas boas, conquistarão muitos outros para Cristo.

A carta diz-nos, que sem o Evangelho somos escravos do pecado e do mal, Jesus sofreu, morreu e ressuscitou para que possamos receber as graças sobrenaturais para alcançarmos a liberdade de sermos filhos adoptivos de Deus, é necessário o baptismo e a conversão e na Fé e nas boas obras devemos perseverar para não recairmos na perdição e podermos assim alcançar a vida eterna no Céu. Neste anúncio como diz o início da Didaqué «Existem dois caminhos: o caminho da vida e o caminho da morte. Há uma grande diferença entre os dois.», é encontrar a Verdade e permanecer fiel ao que é verdadeiro e bom, torna-se fascinante pois não é sobre nós nem sobre a nossa felicidade no mundo, é sobre Deus e a Vida. É encontrar em Deus a plenitude do Bem mesmo que tenhamos (e diz-nos o Evangelho que temos) de levar a nossa vida com sacrifício. É sobre Deus e o que Deus fez por nós, interpela-nos para Lhe correspondermos com a nossa vida. A Igreja torna-se assim a mãe e mestra da Verdade de Deus, é a Casa de Deus lugar dos pecadores que os ajuda a alcançar a bem-aventurança eterna.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Fomos feitos para Vós

A Vida é um meio que está ordenado para um fim: a total e eterna comunhão com Deus no Céu. Cada acção nossa deve ter esta realidade em consideração.
Esse fim não nos era possível alcançar se Deus não enviasse o Seu Filho ao mundo para nos salvar, pela Sua oferta de amor na Cruz sofrendo e morrendo por nós resgatou-nos do pecado e da morte eterna.
Esta é a oferta que Deus tem para nós, não é automática, temos de acolher e cooperar com a Graça de Deus, com Fé, com contrição abandonando o pecado, seguindo os mandamentos, praticando as boas obras.
Jesus mostra-nos a Verdade, ensina-nos as doutrinas, os mandamentos, as boas obras, as bem-aventuranças... estas não são moralismos ou apenas regras, são Vida, são a forma de cooperarmos e acolhermos a Graça de Deus, de realmente fazermos o Bem e promovermos a Justiça, são a forma de alcançarmos o fim para que fomos criados.

As pessoas não sabem qual o sentido do Ofertório e os pais não vêm necessidade de serem os primeiros a transmitir a Fé e a irem com os filhos à missa, isto é sinal de que se perdeu completamente o sentido da mensagem cristã.

A Igreja não é um clube para nos sentirmos bem, não nos vem trazer apenas uma proposta de felicidade. Propostas de felicidade, alegria no mundo e um mundo melhor é o que recebemos das várias comunidades protestantes, que se dividem em tantas porque cada uma quer Deus à sua maneira onde o importante é sermos felizes. Isso não é a Igreja Católica.

A Igreja Católica anuncia Deus e a Verdade, ajuda-nos a alcançar o fim para que fomos criados: a salvação da nossa alma na total e eterna comunhão com Deus no Céu. Ensina-nos e lembra-nos a cumprir os mandamentos porque para praticarmos o Bem necessitamos da ajuda de Deus, necessitamos da Sua Lei e do Seu Amor, sem Ele não somos realmente bons.

Como é possível numa capela mortuária não existir um crucifixo? Perdemos completamente a noção... Como é possível não acolhermos as pessoas com Senhor na Cruz?
Sem o amor da Cruz estamos apenas a criar uma alegria artificial, um faz de conta, abandonamos o jugo do Senhor, esquecemos o fim para que fomos criados em troca de uma suposta proposta de felicidade no mundo.

Penso que não são os pais que deixam a Igreja em segundo plano, não são os fieis que esqueceram o sentido do ofertório, estes foram abandonados por quem os devia ensinar. Os pastores abandonaram a Cruz do Senhor, como as comunidades protestantes apenas oferecem propostas de felicidade no mundo e as pessoas realmente estão felizes na ignorância, sem irem à missa.

Ser católico parte da humildade de reconhecermos que somos pecadores e de que necessitamos de Deus. Necessitamos não apenas para a nossa vida ser melhor, ter mais sentido e que as coisas nos corram bem, essas coisas podemos pedir a Deus considerando que não são um fim em si mesmo mas para nos ajudar a alcançar o Céu.
Como católicos reconhecemos de que necessitamos de Deus para fazermos realmente o que é bom e justo, para fazermos o bem, para vencermos o pecado original e as fragilidades da natureza humana. Reconhecemos de que necessitamos de Deus para alcançarmos o Céu.
É uma atitude de humildade, de grande beleza quando se consegue ver a Verdade. Como toda a criação louva e honra a Deus também nós, por Ele criados, o devemos fazer. Como seres com inteligência e vontade devemos entregar-nos a essa tarefa com grande dedicação: louvar e honrar a Deus, em corpo e alma. E essa atitude começa na humildade de reconhecer o Criador e o Pai de que necessitamos.

Infelizmente o mundo moderno alicerça-se na busca da liberdade absoluta, da igualdade absoluta. Sem o notarmos vivemos na soberba de não querermos reconhecer de que necessitamos de Deus. E assim se criam grupos e comunidades onde Deus não é uma necessidade, não é a origem e fim do Homem, mas sim apenas algo adicional a nós mesmos que nos preenche, nos ajuda. E assim vivemos, em que o «Eu e a minha felicidade» é o que necessitamos, é o nosso desejo e destino, Deus servirá para alcançarmos esse desejo. Pobres de nós abandonados à soberba do mundo como edificação da nossa vida.

Na semana passada em Nova York foi aprovada uma lei que permite o aborto até antes do nascimento, eis onde nos leva o «progresso» que recusa reconhecer a necessidade de Deus e qual é realmente o fim para que fomos criados.

Termos uma mesa à volta da qual celebramos uma festa e celebramo-nos a nós mesmos é fácil, difícil é termos um Altar onde oferecemos a Deus o Sacrifício Perpétuo para a Sua glória e louvor e para a remissão dos nossos pecados.
"quem nunca pecou que atire a primeira pedra", a missa é lugar dos pecadores, dos que reconhecem Deus, a missa é sobre Deus e sobre o que Deus fez por nós.

Devemos voltar para casa e sermos católicos de verdade, não nos deixarmos iludir por promessas de felicidade e momentos de alegria artificial e efémera. O nosso destino vive da Verdade, do cumprimento dos mandamentos e da Lei, do desejo de seguirmos e conhecermos a vontade de Deus. Qualquer mensagem, evangelização e promessa tem de partir daqui, se não partir da humildade de querermos seguir e conhecer a vontade de Deus é apenas ilusão e promessas fáceis.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Presença

"O pai respondeu-lhe: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu."
(Lucas 15, 31)

Na parábola do filho pródigo, em Lucas 15, a presença do Pai é o Seu presente ao filho mais velho. Se isto não é para nós suficiente, então nada será.


É isso que Jesus nos veio dar: "Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste." (João 17, 3).

Se a possibilidade de conhecermos Deus, sabermos a Sua vontade, conhecermos a Verdade e moldarmos a nossa vida na Graça de Deus segundo o Bem que é o próprio Deus não é para nós suficiente, então nada será.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Dar testemunho da verdade

Do livro «Imitação de Cristo»: "Muitos seguem Jesus até ao partir do pão, poucos até beber o cálice da paixão.".

Infelizmente hoje em dia a grande maioria já nem «até ao partir do pão» segue Jesus.
Perdemos o sentido religioso, seguimos as modas protestantes e de Deus apenas queremos consolações.

Em vez de correspondermos ao amor de Deus que se revelou na Cruz queremos que o amor de Deus se revele agora melhorando a nossa vida. Partimos do amor próprio e do amor ao mundo em vez de partirmos do amor de Deus.

Ser cristão é estar verdadeiramente entregue a Cristo, cheio do espírito vivo de Deus, andar em rectidão e justiça na Sua Igreja, una, santa, católica e apostólica, com fome e sede do Senhor, com o coração ansiando pelo Céu. É ser santo, homem ou mulher de verdade feitos à imagem e semelhança de Deus que simplesmente acreditam e ajustam a sua vida de acordo com a vontade de Deus. É meditar sobre a lei do Senhor, guardar os mandamentos, viver a Graça sacramental, louvando e adorando o Senhor na prática do bem e das boas obras. É a alegria de no Domingo prestar o culto a Deus, dar-Lhe louvor e glória no Sacrifício perfeito do Altar. É reconhecer Cristo como Rei, nas nossas vidas, casas, famílias, é a Ele que servimos e é pelo Seu Reino que trabalhamos cooperando com a Graça de Deus.

Viva Cristo-Rei!

"É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz".

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Semana dos seminários

Para compreendermos o que pedimos nesta semana de oração pelos seminários.

Do Vaticano II, decreto Optatam Totius sobre a formação sacerdotal último parágrafo:

"Os Padres deste sagrado Concílio, continuando a obra começada pelo Concílio de Trento, ao mesmo tempo que, esperançados, confiam aos Superiores e professores dos Seminários o encargo de formarem os futuros sacerdotes de Cristo no espírito de renovação promovida por este mesmo Concílio, exortam ardentemente aqueles que se preparam para o ministério sacerdotal a que sintam vivamente que a esperança da Igreja e a salvação das almas lhes está confiada e que, aceitando de ânimo generoso as normas deste decreto, dêem frutos abundantíssimos que permaneçam para sempre."

Na ordenação sacerdotal o propósito do ministério que vão exercer é:
- exercer digna e sabiamente o ministério da palavra, na pregação do Evangelho e na exposição da fé católica
- celebrar com fé e piedade os mistérios de Cristo, segundo a tradição da Igreja, para louvor de Deus e santificação do povo cristão, principalmente no sacrifício da Eucaristia e no sacramento da reconciliação
- implorar a misericórdia divina para o povo a vós confiado, cumprindo sem desfalecer o mandato de orar
- unir-se cada vez mais a Cristo, Sumo Sacerdote, que por nós Se ofereceu ao Pai como vítima santa, e com Ele consagrar-se a Deus para salvação dos homens

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo, pela Igreja renascemos para a Vida em Cristo e somos resgatados do pecado e da morte eterna. A missão principal da Igreja é a salvação das almas.

Muitas vezes ouvimos que a missão do padre é anunciar o amor de Deus e a alegria do Evangelho. Penso que infelizmente estes são termos genéricos, que não convertem e nos deixam ficar instalados comodamente.

O amor de Deus mostra-se nisto, no que fez e faz por nós e que nós não conseguimos fazer sozinhos:  
- Deus não tem necessidade de nós mas mesmo assim, por puro amor, deu-nos a existência.
- O Filho de Deus veio ao mundo para pela Sua morte e sofrimento na Cruz nos resgatar do pecado e da morte eterna, pagando por nós a desobediência nos nossos primeiros pais.
- Temos a possibilidade de receber o perdão dos nossos pecados, desde que tenhamos pelo menos contrição.
- Temos a possibilidade de receber em nós a Vida divina de Deus, dentro dos limites do mundo.
- A Vida divina de Deus que recebemos em nós, é a Graça, ajuda-nos a evitar o pecado, a desejar e procurar a santidade e a chegarmos ao Céu.

E é esta a alegria do Evangelho, sabermos que somos amados por Deus mesmo que não estejamos sempre felizes, alegres e em festa.

O padre é então ministro de Deus, que como Cristo dá a vida pela salvação das almas. Ajuda-nos a alcançar a Graça de Deus e ajuda-nos a cooperar e viver com ela para não perdermos o tesouro que nos foi dado, e desta forma podermos alcançar o Céu.

Tudo o resto que possamos receber no mundo, são graças adicionais, são os bens temporais que nos ajudam a desejar e procurar os bens eternos.

Dá-nos Senhor santos sacerdotes e que nós ajudemos as nossas famílias a conhecer e viver a verdadeira Fé no Vosso amor para que delas surjam vocações, doações da própria vida pela salvação das almas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Porque há-de um jovem ser cristão?

Muitas vezes vemos indicado que os jovens serão cristãos a partir do momento em que existir um «encontro com Jesus». 

Penso que o «encontro com Jesus» não resulta se não mostrar aquilo que Jesus pede na oração sacerdotal em João 17:
- Vejamos a manifestação da glória do Filho que manifesta a glória do Pai.
- Procuremos a vida eterna que Jesus nos quer dar.
- Conheçamos o Deus único e verdadeiro.
- Conheçamos Jesus como Filho de Deus enviado pelo Pai para no salvar.
- Recebamos o Evangelho como verdadeira Palavra de Deus.
- Reconheçamos e creiamos verdadeiramente que Jesus veio e foi enviado pelo Pai.
- Sabermos que não somos do mundo mas estamos no mundo.
- Sejamos inteiramente de Deus por meio da Verdade.
- Que sejamos todos nós um só como Jesus e o Pai são um só.
- Que a união entre nós e com Deus sirva para que o mundo acredite em Deus.

O «encontro com Jesus» também não resulta se não virmos em Jesus o Caminho, a Verdade e a Vida, que ninguém pode ir até ao Pai senão por Jesus. Tudo o que possa haver de salvação de outra forma apenas a Deus cabe.

Penso então que um jovem há-de ser cristão se:
- descobrir que foi criado por amor por Deus para conhecer, amar e servir a Deus.
- descobrir que a sua alma é eterna e que foi criado para o Céu, é aí que está a nossa casa comum.
- descobrir que no mundo estamos como num barco a caminho da eternidade, devemos trabalhar para um mundo melhor não porque vamos criar o paraíso na terra mas por amor a Deus e ao próximo.
- descobrir que Deus enviou o Seu Filho para salvar a nossa alma da morte eterna e do pecado, que pelo Seu sacrifício abriu-nos as portas do Céu.
- descobrir que enquanto estamos no mundo sofremos as tentações do mundo, diabo e da carne e necessitamos da ajuda da graça de Deus para nos salvarmos.
- descobrir que a alegria cristã não consiste em estar sempre alegre e feliz mas em saber que somos amados por Deus.
- descobrir que existe uma Verdade pela qual lutar e trabalhar, que aí encontra os verdadeiros valores, a justiça, a misericórdia e o amor.
- descobrir que existe uma Vida maior do que a vida material no mundo, o que fazemos no mundo deve servir para a glória de Deus, para a nossa santificação e salvação, para o bem do próximo e para que o próximo também conheça Deus e se salve.
- descobrir que existe um Caminho para chegarmos até Deus, que é estreito, contém um ensinamento moral e doutrinal, que é o Caminho do Bem e que a indiferença e a relativização nos leva para fora do Caminho e nos afasta de Deus.
- descobrir que o pecado é uma ofensa para com Deus e que é recusar levar o amor de Deus ao próximo.
- descobrir que Cristo é Rei, a Ele deve estar tudo direccionado e submetido como Rei bom e justo.
- descobrir que a missão da Igreja é a santificação e salvação das almas.

É isto que a Igreja tem para oferecer aos jovens que eles não encontram noutro lugar: a possibilidade de conhecerem o Deus único e verdadeiro, pela transmissão da Fé de uma forma clara e com amor verdadeiro que os ajuda a viver segundo a Verdade.

Precisamos de Bispos e sacerdotes para santificar os jovens, ajudar a salvar as suas almas, ajudá-los a viver segundo a Graça de Deus, dar-lhes os alicerces de uma Fé firme, serem testemunhas da Verdade. Se acontecer isto vamos descobrir que os jovens são capazes se serem bons cristãos e de amarem verdadeiramente a Deus e ao próximo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A Verdade e a Vida

Num país distante existe uma criança que não conheces e de quem não sabes nada, não te é possível entrar em contacto com ela, no entanto sabes que existe. Para ti, essa criança tem valor e importância?
Claro que sim, tem valor e importância, mas de onde vem esse valor e importância se não te é possível entrar em contacto com ela?
O valor e importância dessa criança não está dependente de ti, está nela própria, tem um valor e importância que lhe são próprios. Existe algo nela de valor e importância que não és tu que lhe atribuis, mas antes sim descobres nela esse valor que ela já possuía.

Estás a começar a descobrir a Vida.
Cada ser possui um valor e importância próprios que são independentes do que cada um de nós possa encontrar nesse ser. Esse valor e importância é a Vida. Esta é também independente da vida material no mundo, pois mesmo que esse ser tenha uma vida material no mundo que seja infeliz e desafortunada nunca é um ser descartável, sem valor e importância.
Esta Vida é dada por Deus a cada ser, e para vermos em cada ser a Vida temos de nos abstrair de nós mesmos de forma a não cairmos no erro de lhe atribuirmos nós um valor de forma subjectiva.
Jesus abre-nos os horizontes e o olhar mostrando-nos que há algo mais do que a vida material no mundo, existe esta Vida maior. Jesus ensina-nos que a alma vive eternamente e que um dia Ele voltará para estabelecer o Seu Reino definitivamente, aqui vemos que esta Vida vai muito para além da vida material no mundo.

Agora imagina uma árvore que dá fruto, esta também tem um valor que lhe é próprio. Esta árvore mostra-nos a beleza do Criador, a ordem e o ciclo da vida que vem da Criação e o fruto com que o Criador atende às nossas necessidades. Portanto o simples facto de a árvore existir já demonstra o seu valor próprio. Se tu não poderes colher o fruto que esta árvore dá, a árvore deixa de ter o seu valor próprio?
Não, a árvore continua a ter o mesmo valor e continua a comunicar-nos o valor do Criador independentemente de lhe podermos colher o fruto. Se vamos responder que sim, deixa de ter valor vamos cair no erro do utilitarismo em que os seres e as coisas têm valor conforme nos são ou não úteis.

Temos então a Vida em que cada ser tem o seu próprio valor, independente de nós e temos dois erros: o subjectivismo em que nós é que atribuímos o valor e o utilitarismo em que ignoramos o valor próprio se o ser não nos for útil.

Agora em relação a Deus, conseguimos ver em Deus o valor próprio que tem e a Vida que nos deu ou caímos no erro do subjectivismo e utilitarismo em que o valor vai estar dependente do que dá à minha vida, vai estar dependente da experiência que faço de Deus, vai estar dependente da relação pessoal que possa ter com Deus?

Por isso a Fé Católica é um assentimento que damos livremente a Deus e ao que nos revelou, não está dependente da subjectividade e utilidade que possamos encontrar ou sentir. Dizemos sim a Deus e ao que nos revelou vendo em Deus e na revelação o valor próprio que têm.

Estás a começar a descobrir a Verdade.
Se a Vida e cada ser têm valor independente do que cada um de nós sentir e pensar e têm esse valor mesmo se nós não existíssemos então existe algo que dá ordem e equilibro ao valor de cada ser e à relação entre eles.
Como sabemos qual a medida correcta para a justiça, a misericórdia e para o próprio amor? Se o valor de cada ser é independente de nós, é absoluto e não subjectivo, então a justiça, a misericórdia e o próprio amor terão de ser também independentes de nós, terão de ter uma forma absoluta e não subjectiva.
Essa medida correcta é a Verdade, esta é absoluta e não subjectiva, foi estabelecida e foi-nos dada por Deus, assim não existem "verdades" contrárias entre si ou dependentes da opinião e sentimentos de cada um.

Por isso a Fé Católica é um assentimento que damos livremente a Deus e ao que nos revelou, pois na Fé é transmitida a Verdade que Deus estabeleceu. A Fé é baseada na Verdade e não em sentimentos.

Com a Fé aprendemos a Verdade sobre nós, em que pecado original destruiu a comunhão do Homem com Deus, é por isso necessário o baptismo para removermos o pecado original. No mundo continuamos sobre a influência das tentações e do pecado e por isso necessitamos da ajuda da Graça de Deus. Jesus estabeleceu a Igreja e os sacramentos como meios de salvação, a partir dos quais nos é comunicada a Graça de Deus.

Abrir os olhos para Verdade e a Vida
Infelizmente a sociedade moderna edificou-se na soberba (orgulho e vaidade), a partir do renascimento o Homem foi tentando iluminar-se por si mesmo e libertar-se de qualquer forma de autoridade, foi-se afastando de Deus , da Igreja e criando um Jesus que deixa de ser Rei para passar a ser apenas amigo e mestre: é o Homem em busca da liberdade e igualdade absolutas, ignorando a Verdade e a Vida estabelecidas por Deus.

Jesus tornou-nos livres mas essa liberdade contém a Verdade e a Vida: "Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres" (Jo 8, 31-32). Como contém a Verdade a liberdade contém a ordem, hierarquia, justiça, não é uma liberdade qualquer, é uma liberdade estabelecida segundo a ordem de Deus. Como contém a Vida a liberdade não está dependente dos nossos sentimentos.

A liberdade de Jesus é sermos livres do pecado e do materialismo do mundo, é sermos livres fazendo parte da Verdade e da Vida estabelecidas por Deus. 
A sociedade moderna afastou-se da liberdade de Jesus pois comete o erro de sentir a Verdade e a Vida como falta de liberdade. É a tentação da soberba, afastou-se assim de Deus e voltou ao paganismo. A partir daqui apenas procura Deus dentro de si mesmo, no sentido subjectivo e útil de uma vida melhor.

Faz o Papa São João XXIII um diagnóstico preciso da nossa sociedade:
"A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana. Mas Deus dotou-nos duma razão capaz de conhecer as verdades naturais. Seguindo a razão, seguimos ao próprio Deus, que é o autor dela e ao mesmo tempo legislador e guia da nossa vida; mas, se por loucura ou preguiça, ou, pior ainda, por má vontade, nos afastamos do recto uso da razão, apartamo-nos ao mesmo tempo do sumo bem e da lei moral.

Como dissemos, ainda que possamos atingir com a razão as verdades naturais, contudo, este conhecimento - sobretudo no que se refere à religião e à moral - nem todos podem facilmente consegui-lo; e, se o conseguem, muitas vezes vem misturado com erros. Além disso, as verdades, que ultrapassam a capacidade natural da razão, não podemos de modo nenhum atingi-las sem a ajuda duma luz sobrenatural. Por isso o Verbo de Deus, que "habita a luz inacessível" (1 Tm 6,16), com imenso amor e compaixão do género humano "fez-se carne e habitou entre nós" (Jo 1,14), para iluminar "todo o homem que vem a este mundo" (Jo 1,9) e conduzir todos, não só à plenitude da verdade, mas também à virtude e à eterna bem-aventurança. Todos estão, portanto, obrigados a abraçar a doutrina do Evangelho. Uma vez rejeitada, vacilam os próprios fundamentos da verdade, da honestidade e da civilização." (Ad Petri Cathedram (4))


Como católicos temos de acordar, o modernismo encontra-se por todo o lado, mesmo na própria Igreja muitos membros abraçando o modernismo anunciam um outro Evangelho, abandonando a Verdade anunciam apenas a ilusão de um mundo melhor. Vemos isso quando na pregação quando apenas falam do mundo e do lado material da vida, neles não há vida sobrenatural, é uma pregação espiritualmente seca, sem nos elevar ao Alto, à Verdade, onde a Graça foi abandonada por um "sermos felizes".

Continua o Papa São João XXIII:
"Como é evidente, trata-se duma questão gravíssima inseparavelmente ligada com a nossa salvação eterna. Aqueles que, como adverte o Apóstolo das gentes, estão "sempre aprendendo mas sem jamais poder atingir o conhecimento da verdade" (2 Tm 3,7), e negam à razão humana a possibilidade de chegar a qualquer verdade certa e segura, e rejeitam as verdades reveladas por Deus, necessárias para a salvação eterna: esses infelizes estão bem longe da doutrina de Jesus Cristo e do pensamento do mesmo Apóstolo das gentes, que exorta a "alcançar todos nós à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus..  Assim não seremos mais crianças, joguete das ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens, e da sua astúcia que nos induz ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor cresceremos em tudo em direção àquele que é a Cabeça, Cristo, cujo corpo, em sua inteireza, bem ajustado e unido por meio de toda junta e ligadura, com a operação harmoniosa de cada uma das suas partes, realiza o seu crescimento para a sua própria educação no amor" (Ef 4,13-l6)." (Ad Petri Cathedram (5))

Estas palavras do Papa São João XXIII parecem dirigidas a nós católicos quando na missa passamos a ter um convívio comunitário, numa refeição de acção de Graças em vez do culto a Deus no oferecimento do Sacrifício do Altar:
"Não faltam também os que, sem impugnarem de propósito a verdade, tomam uma atitude de negligência e sumo descuido, como se Deus não nos tivesse dado a razão para procurar e alcançar a verdade. Este reprovável modo de proceder conduz, quase espontâneamente, à afirmação absurda de que todas as religiões se equivalem, sem nenhuma diferença entre a verdade e o erro. "Este princípio - para usar palavras do mesmo nosso predecessor - leva necessariamente à ruína de todas as religiões, especialmente da católica, que, sendo a única verdadeira entre todas, não pode sem grandíssima ofensa ser colocada no mesmo plano que as outras". Além disso, negar toda a diferença entre coisas tão contraditórias, pode levar à ruinosa conclusão de excluir todas as religiões na teoria e na prática. Como poderia Deus, que é a própria verdade, aprovar ou tolerar a indiferença, a negligência e a apatia daqueles que, em questões de que depende a salvação eterna de todos, não fazem nenhum caso nem se importam de procurar e encontrar as verdades necessárias, nem prestar a Deus o culto que lhe é devido?

Hoje tanto empenho e diligência se põem no estudo e no progresso do saber humano, e a nossa época bem se pode gloriar das admiráveis conquistas alcançadas na investigação científica. Então, por que não se há de pôr igual empenho, até mesmo maior, na aquisição segura daquele saber que diz respeito, não já a esta vida terrena e caduca, mas à celeste que nunca terá fim? Só quando tivermos alcançado a verdade que deriva do Evangelho, e que deve traduzir-se na prática da vida, só então a nossa alma poderá gozar a tranquila posse da paz e alegria; alegria imensamente superior à que pode vir dos descobrimentos da ciência e daquelas maravilhosas invenções de hoje, que todos os dias são exaltadas, e elevadas, por assim dizer, até às estrelas." (Ad Petri Cathedram (5))

Sobre a Fé católica e a missa:
"A Igreja Católica manda crer fiel e firmemente tudo o que Deus revelou, isto é, o que está contido na Sagrada Escritura e na Tradição tanto oral como escrita e, no decurso dos séculos, desde o tempo dos apóstolos foi estabelecido e definido pelos Sumos Pontífices e pelos legítimos Concílios Ecumênicos. Sempre que alguém se afastou desta verdade, a Igreja com a sua materna autoridade não deixou de o chamar repetidamente ao reto caminho. Pois sabe muito bem e defende que há uma só verdade e que não podem admitir-se "verdades" contrárias entre si; faz sua a afirmação do Apóstolo das gentes: "Nada podemos contra a verdade, mas pela verdade" (2 Cor 13,8)." (Ad Petri Cathedram (37))

"Quem ignora que a Igreja Católica, desde o tempo dos Apóstolos e pelo decurso dos séculos, teve sempre sete sacramentos, nem mais nem menos, recebidos de Jesus Cristo como herança sagrada, os quais ela distribui em todo o orbe católico, para alimento da vida sobrenatural dos fiéis? E quem ignora que nela se celebra um só sacrifício, o Eucarístico, em que o próprio Cristo, nosso Salvador e Redentor, de modo incruento mas real, como outrora pregado na cruz do Calvário, se imola cada dia por nós todos, e difunde misericordiosamente sobre nós os tesouros infinitos da sua graça? Por isso, com muita razão notou S. Cipriano: "Não é lícito estabelecer outro altar e um novo sacerdócio, além do único altar e do único sacerdócio"." (Ad Petri Cathedram (40))

A paz
" Vinde; "compreendei-nos" (2 Cor 7,2); não queremos outra coisa, não desejamos outra coisa, não pedimos a Deus outra coisa senão a vossa salvação, a vossa eterna felicidade. Vinde; desta suspirada unidade e concórdia, que deve ser alimentada pela caridade fraterna, nascerá grande paz; aquela paz "que supera todo o entendimento (Fl 4,7), porque desce do céu; aquela paz que, por meio do concerto angélico sobre o seu presépio, Cristo anunciou aos homens de boa vontade (cf. Lc 2,4), e que depois da instituição da Eucaristia como sacramento e sacrifício, deu com estas palavras: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá " (Jo 14,27). Paz e alegria; sim também a alegria porque aqueles que pertencem real e eficazmente ao corpo místico de Cristo, que é a Igreja Católica, participam daquela vida, que da Cabeça divina deriva para todos os membros. Esta fará que todos os que obedecem aos preceitos e mandamentos do nosso Redentor possam gozar já nesta existência mortal aquela alegria que é o penhor e anúncio da eterna felicidade do céu.

Mas esta paz, esta felicidade, enquanto percorremos o árduo caminho nesta terra de exílio, é ainda imperfeita. Não é paz completamente tranqüila, de todo serena. É paz operosa, não ociosa nem inerte. Sobretudo é paz militante contra todo o erro, mesmo que dissimulado sob aparências de verdade, contra o atrativo e seduções do vício, e contra toda a espécie de inimigos da alma, que procuram enfraquecer, manchar e arruinar os bons costumes ou a nossa fé católica; e também contra os ódios, rivalidades, dissídios que a podem quebrar ou lacerar. Por isso, o Divino Redentor nos deu e recomendou a sua paz.

A paz, portanto, que devemos procurar e esforçar-nos por conseguir, deve ser a paz que não cede ao erro, que não se compromete de nenhum modo com fautores do erro, que não se entrega aos vícios e que evita toda a discórdia. É paz que exige, da parte dos que a desejam, a pronta renúncia às comodidades e vantagens próprias por causa da verdade e da justiça, segundo a recomendação evangélica: "Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça..." (Mt 6,33)." (Ad Petri Cathedram (48-50))

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O Amor desordenado

O Amor desordenado

A grande tentação da sociedade actual é esquecer Deus e tentar apenas por si própria edificar um mundo perfeito. Aqui surge a forma desordenada do amor, em que o amor é direccionado apenas ao mundo e aos Homens esquecendo Deus. Noutros casos Deus é lembrado apenas para melhorar a vida do Homem, pois o bem supremo tornou-se a felicidade do Homem no mundo em vez de ser o próprio Deus e a nossa comunhão com Ele na vida da Graça.

A correcta ordem do Amor

Cada um de nós como cristãos tem o dever de trabalhar e cooperar para que o mundo seja um lugar melhor, para que o próximo seja feliz e tenha uma vida feliz, plena. Este nosso dever é realizado na correcta ordem do Amor:
- O que fazemos é para glória e louvor de Deus.
- As boas obras têm pelo menos o desejo de que o próximo conheça e reconheça o Deus único e verdadeiro, acredite, se converta e salve a sua alma.
- Sabemos que para praticarmos o bem e as boas obras e trabalharmos a nossa salvação e do próximo não o conseguimos fazer sozinhos, necessitamos da Graça de Deus.
- Sabemos que nos tornaremos pó e o mundo passará.

A heresia pelagiana

A heresia pelagiana consiste em considerar que nos podemos salvar por nós mesmos, apenas com boas obras, esquecendo de que necessitamos da Graça de Deus e esquecendo o que é o pecado original. Isto pode acontecer quando nos preocupamos em criar um mundo melhor seguindo a forma desordenada do amor.

A teologia da libertação

A teologia da libertação é uma teologia condenada pela Igreja, (por exemplo aqui),em que o Evangelho se torna no anúncio da libertação do Homem de qualquer opressão social, económica e política, de tendência marxista em que os pobres se libertam da opressão dos ricos e poderosos e em que a salvação e o Reino se tornam numa vida melhor no mundo.
Esta forma tentadora e alterada do Evangelho altera os conceitos cristãos mantendo as mesmas palavras:
- O pecado deixa de ser uma realidade pessoal que afasta a pessoa de Deus e da Sua Graça para se tornar na ausência de fraternidade e amor nos relacionamentos entre os Homens.
- A salvação é vista não principalmente como sendo a vida após a morte do indivíduo, mas em trazer o reino de Deus: uma nova ordem social onde haverá igualdade para todos.
- Embora os teólogos da libertação não neguem abertamente a Divindade de Cristo, não há confissão inequívoca de que Jesus Cristo é Deus Encarnado. O "significado" de Jesus Cristo está em Seu exemplo de lutar para ajudar os pobres e os marginalizados.
- A encarnação é reinterpretada para representar a total imersão de Deus na história de conflito e opressão do homem. Cristo veio libertar os pobres e oprimidos e ensinar-nos a construir um mundo melhor. Eles convenientemente ignoram que Jesus disse: "Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis." (Mt 26, 11).
- Consideram que a missão da Igreja não é mais uma noção "quantitativa" de salvar as almas mas em vez disso, a Grande Comissão da Igreja trata de melhorar a "qualidade de vida" na Terra; assim, apoiando os pobres e os oprimidos.

As tentações no deserto

Relembremos as tentações que o Senhor teve no deserto (Mt 4, 1-11) para não cairmos nós nesta tentação de criarmos um mundo melhor sem Deus:

Tentação do diaboResposta de JesusTentação do mundo actual
Ordena que estas pedras se convertam em pãesEstá escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.Querermos apenas a felicidade no mundo esquecendo Deus e a Verdade. É esquecermos de edificarmos a nossa vida segundo a vontade de Deus, querendo seguir apenas a nossa vontade.
Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra.Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!Querermos a salvação apenas por nós mesmos, apenas sendo "bons", esquecendo a necessidade da Graça de Deus, o pecado original e a necessidade da ajuda de Deus para realmente sermos bons.
Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.Esquecermos de prestar culto e adorar Deus. Esquecermos de reconhecer Deus como criador em que tudo Lhe pertence. Esquecermos a correcta ordem do Amor. Abandonarmos a virtude da religião para ficarmos apenas por uma espiritualidade "enriquecedora".

O relativismo

Todo este movimento pode-nos levar ao relativismo pois a medida do Bem deixou de ser Deus para passar a ser a felicidade do Homem.
Vejamos a lista de relativismos em que podemos cair seguindo a forma desordenada do amor:

RelativismoFé Católica
O pecado é uma opressão na vida do Homem, é uma relação opressora entre os Homens.O pecado é o que nos afasta de Deus e da Sua Graça.
A Salvação e o Reino consistem em criar um mundo melhor.A Salvação é a possibilidade de após a morte alcançarmos a vida eterna junto de Deus. O Reino de Deus será constituído plenamente no fim dos tempos e agora no mundo está presente na Igreja.
A Vida Eterna é uma vida plena e realizada no mundo.A Vida Eterna é após a morte podermos viver eternamente junto de Deus e no mundo a nossa participação na Vida consiste em vivermos na Graça de Deus.
A missão da Igreja é ajudar os Homens a serem felizes, levando-lhes o amor de Deus. A missão da Igreja é a salvação das almas, anunciando o Evangelho, chamando os Homens à conversão e praticando as boas obras.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Reflexões várias

Dignidade e liberdade Humana:
O documento do Vaticano II, Dignitatis Humanae, ao falar da liberdade e dignidade do Homem alicerça-a na busca de Deus e da Verdade. Só existe verdadeira liberdade e dignidade Humana se procuramos Deus e a Verdade e se quando encontramos a Fé a Verdade nelas permanecemos.

"Em primeiro lugar, pois, afirma o sagrado Concílio que o próprio Deus deu a conhecer ao género humano o caminho pelo qual, servindo-O, os homens se podem salvar e alcançar a felicidade em Cristo. Acreditamos que esta única religião verdadeira se encontra na Igreja católica e apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou o encargo de a levar a todos os homens, dizendo aos Apóstolos: «Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, baptizando os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos prescrevi» (Mt. 28, 19-20). Por sua parte, todos os homens têm o dever de buscar a verdade, sobretudo no que diz respeito a Deus e à sua Igreja e, uma vez conhecida, de a abraçar e guardar."
...
"Mas a verdade deve ser buscada pelo modo que convém à dignidade da pessoa humana e da sua natureza social, isto é, por meio de uma busca livre, com a ajuda do magistério ou ensino, da comunicação e do diálogo, com os quais os homens dão a conhecer uns aos outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se ajudarem mutuamente na inquirição da verdade; uma vez conhecida esta, deve-se aderir a ela com um firme assentimento pessoal."
...
"Pelo que este Concílio Vaticano exorta a todos, mas sobretudo aos que têm a seu cargo educar outros, a que se esforcem por formar homens que, fiéis à ordem moral, obedeçam à autoridade legítima e amem a autêntica liberdade; isto é, homens que julguem as coisas por si mesmos e à luz da verdade, procedam com sentido de responsabilidade, e aspirem a tudo o que é verdadeiro e justo, sempre prontos para colaborar com os demais."
...
"Deus chama realmente os homens a servi-lo em espírito e verdade; eles ficam, por esse facto, moralmente obrigados, mas não coagidos. Pois Deus tem em conta a dignidade da pessoa humana, por Ele mesmo criada, a qual deve guiar-se pelo próprio juízo e agir como liberdade."
...
"Os fiéis, por sua vez, para formarem a sua própria consciência, devem atender diligentemente à doutrina sagrada e certa da Igreja. Pois, por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade, e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo declara e confirma, com a sua autoridade, os princípios de ordem moral que dimanam da natureza humana."

Porque se esvaziam as igrejas?
A ida à igreja não pode estar dependente de o que vou lá fazer e escutar ser para mim "interessante", de estar dependente do que o padre faz ou diz.
Penso que este é o problema de colocarmos a nossa felicidade como o valor mais alto. A ida à igreja faz-se porque queremos prestar culto a Deus e viver na Graça de Deus nos Sacramentos. Se as igrejas se esvaziam é porque se perdeu a ligação a Deus e nós nos tornamos no centro e destino. Acontece quando em vez da Graça se procura a felicidade e acontece quando a nossa vida se torna mais importante do que a Verdade e a Vida que existem para além da nossa existência aqui no mundo. Ao concentrar-nos em nós e na nossa felicidade estamos a construir a casa pelo telhado.

A missa é culto a Deus, vem da virtude da religião, vem do desejo de darmos a Deus toda a honra e glória, do desejo da Graça de oferecermos com Cristo no Altar e nos alimentarmos do alimento da vida eterna, o centro de atenções da missa é Deus e não nós.

Melhorar as homilias é um bom caminho, mas não vamos estancar ou alterar o esvaziamento das igrejas enquanto as pessoas não compreenderem a edificarem a casa pelo que é eterno, pela Verdade, pela Vida, pelo Bem que é o próprio Deus. Tudo isto é bom e justo independentemente de nós, da nossa existência, da nossa vida e felicidade, estas penso que vamos encontrar no telhado desta edificação. Ainda na edificação, nos alicerces encontra-se a Fé firme e esclarecida, mesmo que seja simples, mas que sabe e dá o assentimento ao que a Igreja sempre ensinou desde o tempo dos Apóstolos.


A felicidade e a alegria cristã:
As palavras «felicidade» e «alegria» podem ser mal interpretadas se forem consideradas como o mundo as promove.
Se as não compreendermos à luz da Salvação podemos pensar que são promessas de felicidade e alegria como tantas outras que nos são feitas por anúncios, pelo consumismo, pelo niilismo, pelo egoísmo do Eu. E nesse caso a mensagem da Igreja deixa de ser credível, torna-se uma promessa como tantas outras.

A alegria cristã se for considerada como a alegria normal da vida no mundo, apenas num plano sentimental e afectivo perde a verdadeira dimensão que tem.
A alegria cristã não é apenas um estado afectivo, uma emoção feliz que por vezes está ligada ao amor humano ou à interacção social.
A alegria cristã é fruto da virtude da Caridade, e a Caridade é caracterizada pela correcta ordem do Amor: colocar Deus primeiro e a partir daí ordenar todo o amor em referência a Deus.

A alegria cristã não pode estar desligada da Cruz.
Termos alegria cristã não significa que estamos livres de sofrimento e dor, estas fazem parte da vida cristã, de levarmos a Cruz.
Na alegria cristã não significa que estamos sempre "felizes" e alegres.
O caminho da alegria cristã e da vida cristã não vai levar-nos sempre a sentir felicidade.

A missão da Igreja não é levar-nos a sentirmos o amor de Deus mas sim em primeiro lugar a missão da Igreja é levar-nos a saber e confiar que somos amados por Deus, independentemente do que sentirmos no momento.

Muitas vezes não vamos sentir alegria e felicidade, mas sabemos e confiamos que Deus nos ama, e apesar de no momento não sentirmos a alegria e felicidade temos na mesma em nós a alegria Cristã, porque sabemos que Deus nos ama.

Assim, a nossa missão de levar a alegria e felicidade no mundo tem de partir da virtude da Caridade, de ordenar primeiro o amor a Deus e sabermos e confiarmos que Deus nos ama.